10 de Dezembro de 2012

Literatura a Cores

Prosa, literatura comestível em badanas inomináveis
vocábulos exegéticos e margens textuais da perífrase
no engodo da escrita, a silaba átona mais refinada
campos do hipertexto rodeados de sintaxe.

Hoje é o tempo das quadras. Natalícias as filhós
com recheio de abóbora. Menina, a moça das
tranças vermelhas. Rubro é o verso do amor,
a saudade uma pétala branca de melancolia.
Verde é a bile da raiva lacustre e mortal. A
esperança é um regato fresco e pastoril de
uma manhã clara de prazer. Ocre é a telúrica
savana do teu corpo. No arco-íris do desejo
um sol molhado de fonéticas apetecíveis.


28 de Novembro de 2012

Nesse Lugar Secreto

Há nesse lugar secreto da solidão
uma esteira para o descanso dos
sentidos, pétala amarga e exangue
de um beijo petrificado de amor

Agora que regressas ao pó do deserto
para que a infâmia do teu corpo seja
finalmente expurgada do mal inquieto
que te acompanha, traças uma rota
indefinida, tacteando na areia a
morte mais que provável dos afectos

Foi nas dunas que sucumbiste ao calor
e nessa rarefacção das palavras só
conseguiste pronunciar um ditongo
coevo e audível na lisura da vida
Mal chegaste à filigrana dourada
do desejo e já partiste para uma
memória insípida da existência

Despedi-me com denodo e acenei
aos ventos do Suão até à próxima
visita em funestas deambulações
Enrolei a esteira e fiz-me ao mundo
O amor já fazia sentido na orla do mar

11 de Novembro de 2012

Obituário

Perece lentamente o silêncio no habituário insalubre da saudade
Preces lentas no silente arbitrário e insensato do soldado
Parecem lentes silenciosas no hábito insano e salgado
Precedes lenta a selene e obituária insegurança da saúde

21 de Outubro de 2012

Na Respiração das Palavras de Pina

Onde está a imagem do meu duplo?
Onde me revejo neste espelho convexo
que me atrai para a escuridão?

Que pergunta me pergunta a imensa solidão
da morte e da cegueira do olhar que me olha?
Que coração míope permite a síncope diastólica?

Onde estava eu, queridos amigos? - Onde estavas tu?
Perdido na erecção do mar? No tormento da tua nau
desabrigada e liquefazendo-se em vagas salgadas da memória?

Onde estávamos todos na tua morte? Onde estava a morte
na morte dos outros? Onde andava a Tia Miséria? A varrer o
chão de cinza e chumbo? Onde se abriga a morte? No teu coração?

Em que lábios gretados fluem sucos adstringentes e mortais?
Em que beijos e cantos do cisne encontraste a tua morte?
Em que canto do mundo existes, morte sincera e moribunda?

Em que perguntas me perdi? Em que espelho côncavo me
iluminei e descobri? Em que matéria decomposta me transformei?
O que temo agora, já que a vida me fez morrer com prazer?

19 de Outubro de 2012

Quando Morre um Poeta

Quando morre um poeta
fecham-se as palavras
como que envergonhadas
da sua serena solidão

As palavras, esse enigma do mundo,
balbuciam ao poeta a claridade
do momento de inebriamento
dos sentidos da vida fugaz

Mas é na morte que as palavras
se escondem, para recomeçarem
o seu uso na ancestral memória
dos caminhos por desbravar

Os poetas, esses criadores de mundos,
murmuram às palavras sonhos pela
madrugada fora, o desejo da eterna
mácula nos livros de desavergonhada

existência.


Para Manuel António Pina

11 de Setembro de 2012

Um Só Nome

Acabou de se publicar
em caracteres Garamond
a biografia de um condenado

Fora condenado à vida
no silêncio das palavras
inquietas, em Garamond

Num papel couché de 80 gramas
liquefaz-se a existência da vida míope

andamos todos a brincar com o mundo
e a morte - sempre ela em meu redor -
para nos consignar à solidão do parágrafo.

Obra terminada. Fica agora no prelo
à espera de capa, ilustração, e um nome:
Um só nome para o título. Do autor

não reza a história. Na lombada, a tua
mão doce, que acaricia o futuro. Um
livro feito com palavras imperfeitas.

10 de Setembro de 2012

Aqui Jazz

No meio dos escombros do teu olhar
a sinfonia maculada da morte. Finíssimos
espectros da medusa insalubre e sonsa.

Caíste de borco e em silêncio na praceta
dos fiéis defuntos. A tua solidariedade com
os pobres sempre foi nauseabunda.

Fiquei atónito perante as pétalas arrancadas
e atiradas para o charco plúmbeo dos
teus olhos. Fizeste-a bonita ao deixares
os papéis do IRS por preencher. Agora
o fisco, que vela por nós, vai condenar-te
ao inferno dos sempre revoltados e oprimidos.

Aqui jazz uma melopeia breve, cinco minutos
de piano, bateria e baixo. O teu sorriso, agora
esfacelado num esgar de dor e ciúme.

Por cima da urna, os votos de boas frestas.

14 de Junho de 2012

Carta de Recomendação

Falo muito sobre o meu país. Valorizo-o, especialmente no que concerne à Cultura, aos nossos fazedores de arte. Gosto muito de Portugal, pelas suas diferenças regionais, pelas paisagens, pela gastronomia, pelo clima, pelas gentes. Mas como é óbvio, não por toda a gente. Há muita gente que tem um pensamento demasiadamente conservador, atrasado, passadista. Não gosto. Como não gosto da corrupção instalada, das cunhas, dos interesses, de uma série de gente com pequenos e grandes poderes instalados e podres. Que fedem, que dão-me raiva. Fazem-me ter vontade de estoirar com eles, com os poderes e essas pessoas. Torno-me muito violento, apetece-me partir tudo. Porque não me conformo, porque estou sempre do lado dos pequenos, dos oprimidos, dos pobres. Porque também o sou: pobre. Mas gosto de lutar, gosto de olhar para o lado, para os outros, ter uma noção ampla do que por aqui se passa. E não gosto do conformismo das pessoas. Não gosto da apatia, de rir fora de tempo. A arte do humor é a mais difícil, pois tem um ritmo muito próprio e definido. Não podes passar esse tempo, senão quebras tudo. O mesmo se passa connosco. Não podemos deixar-nos levar pela bonomia, pelo facilitismo dos dias. Temos de ser exigentes. Connosco e com os outros. Faz-nos falta. Não gosto desta maneira de ser lusitana, em deixar as coisas ir andando. Gosto de pôr termo às coisas: a um trabalho, a despachar uma tarefa, a dizer o que penso, a formar a minha opinião, a ser crítico e directo, sempre respeitando a opinião do outro, mas nunca temendo a minha visão. Espírito crítico, sensível, falta-nos. Falta-nos rigor. Falta-nos cumprir o estipulado, cumprir com a palavra dada, com os horários. Falta-nos um país justo e equilibrado socialmente. Não gosto desta sociedade injusta e com ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres, cavando este fosso nauseabundo e perverso. Falta-nos políticos competentes e que trabalham em prol das pessoas, da democracia. Falta-nos um país equilibrado entre o litoral e o interior. Não gosto de um país com realidades muito diferentes e em que o interior é desprezado, esquecido, posto de lado. É setenta por cento do território nacional! Como é possível? Terras magníficas, com condições naturais óptimas para o trabalho, para se viver, para o turismo, para a qualidade de vida, para a felicidade e temos isto? Não se sentem envergonhados? Eu sinto-me, apesar de não ter culpa e ser contrário ao encerramento de centros de saúde, hospitais, maternidades, postos de correios, tribunais, freguesias, estações de comboio, fábricas, projectos. Sou a favor de um país regionalizado, dividido em regiões, que poderiam canalizar os dinheiros bem melhor, com pessoas da região, que a conheçam bem. Todos os países evoluídos e da Europa, possuem regiões e as coisas funcionam bem melhor do que aqui. Sou também a favor do envolvimento directo das pessoas na participação directa em votações de vária espécie, os chamados referendos. Poder votar se quero manter aquele mercado ou não, se na minha região quero valorizar o turismo ou as indústrias criativas. Se queremos ou não touradas. Isto sim, seria um país mais justo, mais equilibrado, com participação cívica elevada. Isto claro, se as pessoas votarem. Eis outro problema, coisa que não gosto. As pessoas não votam, não se envolvem, desistem. Quarenta por cento de abstenção. Se julgam que estão a dar um sinal contra os políticos, pelo contrário, são os responsáveis por serem os mesmos a vencer, as mesmas caras a mandar nas vossas vidas, vós que desististes de poder ser representados por aquele que mais se identificam. Assim, permitem que qualquer um mande em vós. E vós calais e gostais. Se reclamais, é sintomático do espírito atrasado e estúpido, desculpem a sinceridade, de ser e agir perante o mundo e os outros. Reclamar fora de horas, a destempo, não serve de nada. É apenas ruído. E desse já temos em barda no nosso país. Não gosto de ver as pessoas atirarem beatas e pastilhas elásticas ao chão. Não gosto de ver pessoas atirar lixo à rua, o que ainda se vê com alguma frequência. Não gosto de ver as nossas zonas costeiras degradadas, sem estarem limpas. O mesmo com as zonas agrícolas e florestais, sujas, com as sebes altas, o chão cheio de matérias secas e potencialmente combustíveis, que causam ano após ano os incêndios, além claro, dos fogos postos por lunáticos, atrasados mentais, criminosos, pessoas com interesses. Mas os incêndios não são fatalidade. Poderiam ser combatidos, o ano inteiro, limpando as matas, criando zonas corta-fogos, tendo vigilância, tendo os proprietários como responsáveis máximos dos terrenos, mantendo-os limpos e sempre vigiados. Poderíamos ter rios mais limpos, mais saudáveis, se as empresas, as explorações agrícolas fossem controladas, tivessem multas brutais sempre que prevaricassem. Poderíamos controlar os assaltos, os roubos, esta criminalidade se os prevaricadores fossem punidos e soubessem que o sistema judicial os não libertava por tuta e meia. Porque me dá raiva o pequeno ou o grande roubo. Não sou a favor de uma sociedade baseada no medo e na segurança, mas falta-nos mão mais rígida, o que não é o mesmo que ser pesada. A rigidez tem a ver com o criminoso saber que ao estar perante a justiça, vai ter problemas, que o castigo é uma consequência do crime. E há tantos modos de castigar. Há o serviço cívico, há trabalhos pesados, há a correcção prisional e não como a actual pousada prisional. Não gosto do rumo da nossa educação. Do facilitismo. Da dificuldade de vida dos professores, desamparados e isolados socialmente. Uma profissão basilar e que mantinha um respeito, pelo menos para quem interessa, os alunos e os pais, foi sendo desvalorizada que hoje é olhada de soslaio. Um professor é um burocrata, trata de papéis e depois tem de aturar miúdos indisciplinados, que pensam mais em jogos, em computadores que nas aulas, nas matérias a aprender. Valoriza-se o primado do indivíduo egoísta, preguiçoso e presunçoso. Ao invés, os que se aplicam, os que estudam, são gozados pelos colegas, sofrem bullying, são escorraçados. Mas felizmente que ainda os há, são o futuro deste país. Nem quero alongar-me no ensino superior. Mas tenho notado um baixar de nível, de conhecimentos. Conheço muitos jovens no superior ou com cursos concluídos e com falhas graves de cultura geral, de escrita, oralmente não conseguem manter uma conversa minimamente estimulante do ponto de vista intelectual. Tornam-se especialistas na sua área de estudo e do resto, pouco sabem, pouco procuram interessar-se em outros mundos do saber. Claro que há excepções e ainda bem. E um dos grandes problemas de alguns jovens em relação ao futuro é esse saber limitado e que os fez acreditar que a especialização é que é. Pelo contrário, um saber global e alargado, como preconizavam os homens do Renascimento, é mais proveitoso e abre mais possibilidade de escolha para uma profissão, para trabalhar em áreas diferentes, para abrir o leque de oportunidades e de projectos de vida. Precisávamos de ter um sistema que voltasse a respeitar o Professor, em que pais e alunos sentissem ali um mestre, um educador cívico, social, político e de saber partilhado. Com mais educação, ou instrução como também podemos dizer, teremos sociedades mais justas, porque mais despertas civicamente, com consciência social mais elevada, o que se reflecte depois na consciência política, familiar, de relação e geracional. A educação é a base do conhecimento e da cultura. Seres instruídos e estimulados desde cedo para as artes e a cultura num sentido lato, o mesmo para a filosofia, o pensamento crítico e estético; serão desde cedo público atento e fazedor de cultura, vendo espectáculos, participando e fazendo arte. Numa sociedade justa e avançada, a cultura faz parte integrante de qualquer ser, a cultura abrange todos os estratos, todas as idades, todos os credos, todos os meios físicos. A cultura é respeitada e estimulada pelos governos, pelas autarquias, pelas empresas, pelos privados. O mecenato será bastante difundido, as empresas terão todo o envolvimento e serão reconhecidas por esse envolvimento. Serão empresas com alto valor cívico e socialmente responsáveis, onde apetece comprar e investir, consequentemente como cidadão, nessa empresa, nos seus produtos. É isto que sinto falta no meu país. É nisto por que me tenho batido ao longo dos anos. Mas é neste país que não tenho visto mudanças, muito poucas para quem quer tanto. Para quem é exigente. Culpa minha de ser assim, talvez. Inquietação a mais, dizem os mais brandos e felizes. É neste país que tenho visto a diminuição de salários, de regalias sociais, de qualidade de vida, de pessoas bem-formadas e o aumento de medidas políticas injustas,  de políticos corruptos, de diferenças sociais, de poder de compra, de insegurança, de desemprego, de depressões, de solidão. 
É este país, que tanto amo e por quem me tenho batido, que vou ter de sair. Ir-me embora. Não porque alguém disse que o melhor era emigrar. Estudei demasiado tempo para seguir vozes de burro, que nunca chegam ao céu, já dizia o provérbio popular. Não pelos outros, mas por mim. É uma vontade, um desejo, de procurar algo melhor. E desculpem, mas não é difícil. Não é difícil encontrar países mais justos, embora seja sempre difícil a integração inicial. Mas sempre me senti um cidadão do mundo, sempre gostei de viajar e mais do que isso, conhecer e respeitar o outro. Conhecer o povo, a história, o clima, a geografia, a política, a sociedade do país de acolhimento. E esse trabalho já foi feito. Já estudei bastante, como sempre. Nada se faz por acaso e não costumo tomar medidas extemporaneamente. As ideias, as vontades, andaram a moer-me a cabeça, há anos. Desde o momento em que se descobrem novas realidades, e que ainda por cima essas realidades fazem indagar-nos acerca da possibilidade e do quanto nos revemos em certos lugares, países, pessoas. E assim, se solidificou esta ideia. Como sempre, para mim o penso, demasiado tarde. Sempre fui muito serôdio, as minhas colheitas e decisões demoram sempre mais que o razoável. Defeito meu, aguentar ao máximo o barco já cheio de água, mais ainda ter na mão um balde para vazar o excesso. Sim, estou farto desta nau, o que não implica estar farto da tripulação da mesma. Tem a ver com a viagem. Quem deambula muito, tem sempre vontade em experimentar o barco que vai em sentido contrário. Como diria o António Variações, estou bem aonde não estou, porque eu só quero ir aonde não estou. Pode ser que um dia me farte do sítio onde ainda não estou e deseje ardentemente onde agora estou. Para já, é tempo de desaguar neste tempo, nesta escrita fácil, pois de tanto tempo e memórias acumuladas, é fácil discorrer sobre a realidade que me envolve. Fora isso, não há tristeza alguma. Pelo contrário, como bom português, há sempre o desejo da descoberta, do conquistar novos mundos, no meu caso, conquistar o meu pequeno mundo de sonhos e utopias. Talvez um dia possa criar essa Ilha da Utopia como Thomas Moore sonhou e vos possa convidar a todos para um mundo melhor. Até lá, saúde, beijinhos e boas partilhas. Vamos continuar a falar-nos por aqui! Sem medos, com vontade de mudar a estória da nossa História actual! 

5 de Maio de 2012

Li-ber-da-de


Uma nova era que transforma o infinito em mar salgado do desespero. Na cama dos amantes há um bafo quente de miséria e solidão. Cais no precipício primordial do mundo e socorres-te da paisagem nublada para a morte antecipada do amor. Era o tempo em que as estrelas sabiam a doce e o amante, figura pálida e seminal, acorda de um sonho profundo, na liberdade angustiante de um beijo. Percorreu as ruas, que estavam despidas de gente e deitou-se na gravilha branda da saudade. Só lhe apetecia chorar na sua ensimesmada dúvida existencial. Morreria agora, ou alcançaria finalmente o zénite da pureza. A noite chegara e as nuvens adensaram-se num pranto incomensurável. No outro lado da vida, a amante dilacerava cebolas em barda, para poder lacrimejar sem pejo na amargura do silêncio, daquele silêncio nauseabundo e aromático. Separados à nascença, o choro e o riso aguçaram-lhes a vontade de exteriorizarem as emoções, sem medo ou culpa, sem o derredor da infâmia. Pátria calada nos sumiços da verdade, ensanguentada virtude nas guerras ultramarinas, vício e sexo na oralidade fragmentada da escravidão, lastro de ditadura na madeira carcomida do poder. Essa música inquieta e perturbante, fulmina como um raio de luz, uma ocre diatribe nas mentes recolectoras da ânsia de uma vida finalmente nova e feliz. E escavam a manta de retalhos do pútrido afecto determinista da existência, querem um novo ciclo de amor e morte. Sempre de mãos dadas, os amantes reconciliam-se na espera hospitalar dos condenados, pacientes inquietos de desejo e loucura. O obsessivo passo é feito nas montanhas e nos rios, desagua freneticamente na dor da escolha, fertiliza o nascer do prazer nas lezírias plácidas da liberdade. Que fazer agora, dizia o poeta, com as palavras à solta, como crianças rebolando na erva doce do futuro? Sujando letra a letra o tenro corpo diabólico e doce? Vocábulo a vocábulo se fez a perífrase do amor, finalmente pudemos arrumar as botas cardadas que nos exilavam na vida amordaçada e inconsequente. Por agora, finalmente, juntar as sílabas e partilhar a alegria da fealdade pairando nas nuvens da imaginação.

13 de Abril de 2012

Ex-Citação

Não sou mais do mesmo, porque a cada dia que passa não sou mais o mesmo.

26 de Março de 2012

Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2012 por John Malkovich

"Sinto-me honrado por ter sido convidado pelo Instituto Internacional de Teatro (ITI), órgão da UNESCO, para escrever esta mensagem, na comemoração do 50º aniversário do Dia Mundial do Teatro. Vou tecer os meus breves comentários aos meus companheiros trabalhadores de teatro, colegas e camaradas:

- Que a vossa arte seja atraente e original. 
- Que ela seja profunda, comovente, contemplativa e única. 
- Que ela nos possa ajudar a reflectir sobre a questão do que significa hoje o ser humano, e como essa reflexão pode ser acompanhada com o coração, a sinceridade, a franqueza e a graça. 
- Que possam superar a adversidade, a censura, a pobreza e o niilismo, como muitos de vós certamente terão de o fazer. 
- Que sejam abençoados com o talento e o rigor para nos ensinar sobre o bater do coração em toda a sua complexidade, e a humildade e curiosidade para fazer o trabalho das vossas vidas. 
E que o melhor de vós - para cada um será o melhor de si, e mesmo assim só nos momentos mais raros e mais breves - ter sucesso na hora de pensar a mais básica das perguntas: "Como é que vamos viver?" 
 Merda!!!

John Malkovich

(adaptação minha, a partir de uma tradução brasileira)

11 de Março de 2012

Quadras Soltas

Uma súbita dor cava na mental exigência de se ser
ficar tolhido na casa de Inverno do luto de te ter
uma agonia assaz profícua no cerebelo da memória
prender as amarras do meu cais no teu barco ancorado

Andar de peito erguido e braço ao vento, levantado
para as musculaturas daquilo em que acreditamos
e exasperados pela noctívaga estação dos sentimentos
arrastamos a perfídia na saliva infinita das preces ruidosas

Ficar dorido no chão depois das botas cardadas
pisarem toda a aventura do acreditar em nós
ilusões imperfeitas, mas puras na raiva à solta
pelas pedras da calçada suja, cuspida e sangrada

E por lá ficamos, exangues, a estancar a solidão
sem remorso nem dúvidas do percurso traçado
mas inquietos pois é hora de levantar de novo
e soerguermo-nos na rua larga da esperança

Abraças-me e de seguida dás-me um beijo
prenhe de sangue, suor e sal. Um juramento
de irmãos na melodia agora doce do futuro.
Caminhamos agora sem rumo, silêncio afora.

7 de Março de 2012

Ave-do-Paraíso

Como um pássaro que de mansinho voa
ela vai para os braços de Morfeu, em
Helénicos sonhos e amores gentis

E aos poucos, nesse vale de memórias,
espraia-se na hidrólise da matéria que
a abraça em novelos ondulantes

Como beija-flor, periquito, pombinho
delicado e doce, que chilreia no
meu ouvido uma música de encanto

ela esvoaça a inteligência sensorial
nos trajectos circulares da arte
e regista em imagens os delírios

E deixo-me embalar na toada
discreta e serena desta ave
sensível e mais-que-perfeita

no pretérito verbal da paixão
pela escrita imutável e fiel
no mais sereno silêncio.

29 de Fevereiro de 2012

Coração de Ouro

Vou avaliar o meu coração a uma contrastaria
para ver se o ouro que possui é ou não valioso

Primeiro, tenho que me dirigir com denodo ao edifício
depois, ser revistado pelo polícia na entrada e passar
de seguida pelo detector de metais e armas perigosas

Finalmente entro e ainda tenho de esperar pelo oficial
para que receba este coração já velho e cansado

E ei-lo que chega e num ápice pede-me a jóia
embrulhada em papel pardo. Analisa-o com
cuidado e ao fim de algum tempo, a pergunta:

- Quantos donos já teve este coração?
Ao que lhe respondo: Bastantes!
Ri-se para mim e volteia-o mais uma vez.

Sim, tem valor! Nota-se o uso e algum desgaste,
mas está perfeito para ainda ser usado outra vez
e poder bater sem fim em dias e noites de alegria.

E a medo, pergunto-lhe: - Quanto vale o meu coração?
- Vale um sorriso gentil e um poema de amor infinito,
responde-me o oficial dos brilhantes corações vendidos.

25 de Fevereiro de 2012

Tríptico Pessoal

Hoje fundaria uma praia nos teus lábios
e pediria aos ventos de levante o odor
cálido e doce da pérpétua-das-areias
para eivar no ar o sabor da bonança 
meu amor

Ontem previ a morte dos sorrisos
nas intermitências da vida sofrida
mas tudo foi ilusão das estrelas que
encandearam o meu olhar inocente
meu amante

Amanhã pedirei sorrisos na lua silente
para afagar as dúvidas no percurso
enviesado e levemente traçado a giz,
efémero caminho dos dias insurrectos
meu amigo

22 de Fevereiro de 2012

Tempo Demais

Estive tempo demais sem te ver, sem te sentir
fortuna do tempo

Perscrutei na noite a insidiosa fonética larvar
do teu ventre

E enquanto ruborizavas no cálido divã dos afectos
eu prostituía-me numa ruela esconsa e prenhe de vícios

Deixei-te ir embora sem pestanejar e balbuciei apenas
o desejo intenso de te amar numa avenida só de peões

Mas este tempo é o do rancor e do silêncio, da perfídia
inconstante, em que as margens deixaram de ter alegria

E neste mar de gente imensa e solitária, um corcel
endiabrado pode ser a salvação do mundo
e a morte do artista em traços pintados a grosso

Seguro agora na paleta em que me enrodilhaste
e misturo os matizes do abandono na tua veia
exangue e aberta ao óleo sobre a tela da paixão

Já o amor é uma técnica mista em que rasuras
o preparado e juntas todos os ingredientes que
possas abarcar, em círculos concêntricos sem fim.

Voltei de novo àquele bar de prostitutas e vagabundos
onde o fumo queima a garganta e o álcool tresanda
nos corpos e no chão carcomido da sala decadente

Estive tempo demais sem te ver, sem te curtir
fortuna do tempo

Perscrutei no dia a lúgubre semântica solar
do teu corpo

E embandeiro em arco na dionisíaca casa-mãe da vida
enquanto o teu saber apolíneo me atrai e atemoriza

Chegamos finalmente ambos a acordo:
a maresia do tempo que se esvai na ampulheta dos sonhos
é o nosso destino final e fatal para compreender o amor
 

10 de Janeiro de 2012

O meu corpo cheira a alfarroba

Cheira a alfarroba o meu corpo
Debaixo dos meus braços há
o perfume do Sul, há o sol dos
amantes solitários e o sal do
mar nos teus lábios gretados

Tenho o odor da perenidade
um barulho de fundo na memória
as mãos nuas na raiz profunda
e o meu corpo anicha-se na
árvore de Pitágoras e por lá
observo a lua cheia solitária

Cheira a alfarroba o meu corpo
e perambulo esse perfume nas
falésias da sagacidade criadora
Estou pronto a voar agora
nos secretos desejos báquicos.

23 de Dezembro de 2011

Mordes a Língua Inusitada

Mordes a língua inusitada
nas preces falhadas do
teu desejo consumista.

20 de Dezembro de 2011

Mesmo que não gostes de mim

Olha, quero escrever-te esta carta. Provavelmente até não gostarás de mim, por ser tão rude e muitas vezes
me deixar enredar nas obscenidades, na revolta contra o mundo dos poderosos. Acredito que tenhas razão.
Não passo de um ser simples e tolo, nascido no meio da pobreza e das injustiças. Depois, o fermento dos
dias e anos a ver sempre os mesmos a sofrer e a não ter nada, fez o resto.
Provavelmente não gostarás desta carta nesta época de paz e amor, em que todos somos bons samaritanos
e praticamos o bem. Eu não vou nunca praticar o bem. Porque não posso, porque não me deixam.
Sinto-me preso aos dias do presente, com todos os malefícios da humanidade. Uma noite, um dia, uma
época concreta não mudam nada. Nem Jesus, nem as religiões para iludir as pessoas e manter sempre
o status quo dos poderosos perante os outros, que não te iludas, somos nós. Sou eu e és tu. Apesar da
tua desconfiança para comigo e para com a minha vida. Mas lembra-te de respeitar sempre a visão do
outro, porque cada ser tem o seu canto pessoal de memórias e vivências individuais. É nisso que acredito,
em ti, ser individual e único. Desde que tenhas em ti a consciência do teu dever perante os outros. Desde
que saibas que a inteligência deve ser usada para o proveito de todos e não apenas do teu. Que a cultura
é algo que deves valorizar e promover. Que o amor é uma arma tão poderosa quanto a tua voz de luta.
Que a energia com que te empenhas perante o mundo e a tua vida são mais importantes que todos os
arraiais, todos os natais, todos os deuses, todas as romarias e procissões. Que não devemos adorar ídolos
com pés de barro, pois são inanimados e tu és um ser pensante. Usa o cérebro para a reflexão, a crítica
e usa a tua sensibilidade para amares as pessoas, os animais e a natureza envolvente.

Esta é a minha carta, é o meu coração a falar, numa cabeça com milhões de imagens, lugares, pessoas e
memórias infinitas. Que quando a vida não corre bem, existem os amigos, os amantes, os pais, os avós,
um desconhecido, para te ajudar. Que a vida não deve ser feita de medos, de temores com o futuro, com
o presente, com o passado. As dúvidas no caminho, só com a experimentação, só indo ao encontro delas,
poderás encontrar respostas, ou alternativas. Não há fórmulas universais para as nossas vidas. Há apenas
o desejo de trilhar caminhos. Umas vezes repetindo os velhos caminhos gastos e sem erva pelo caminho,
outras vezes molhando os pés na erva alta dos caminhos desconhecidos. A surpresa, a curiosidade é sempre
boa companheira. Ser observador, ser curioso, fazem de ti um ser mais lúcido, mais louco, mais estranho
para os outros. Não temas a diferença, o comentário jocoso, a indiferença, a extravagância dos teus actos.
Porque a vida que vamos viver é só uma, mesmo que não acredites. Aproveita o tempo que os teus pais te
deram para nasceres e construíres o teu percurso. Não foi deus que te pôs aqui, não desculpes sempre a
tua vida com a vida dos outros para te sentires melhor. Recusar deuses é assumir com maturidade todos
os nossos actos. Assumir que é o ser humano que comete atrocidades, que é a natureza que causa tufões,
tremores de terra, que os animais são cruéis, mas leais. Assume-te como ser que erra, mas sem pecado,
sem baixares a cabeça de vergonha perante o mundo. Levanta a cabeça, deambula por aí e faz novos
amigos. Podem não gostar de ti, podem ignorar-te, mas se fores sempre transparente e verdadeiro, estás
livre de remorsos e arrependimentos do passado. Nunca deixes nada por fazer ou dizer. Se amas, se sonhas,
se sofres, se sorris, se queres subir ao alto do monte, sobe, se te queres despir, despe. Se queres ser rude,
tolo, mau, sê. Como deves ser generoso, amigo, sensível, agradável para os outros. Mesmo para ti, que não
gostas de mim, que me ignoras, que me desprezas. Não te censuro por tal atitude. Porque sou eu que provoco
isso. Sou eu que vou à luta, sou eu que procuro a reacção da minha antecedente acção. Se ficasse parado,
se me mantivesse no mesmo limbo inerme, parado, não se agitaria o mundo, não haveria energia para fazer
a combustão dos sentidos. Esqueci-me de te dizer que isso faz parte do meu dia-a-dia de trabalho. O mundo
das emoções, dos sentidos, dos abraços, dos sorrisos, dos choros, dos gritos, dos pulos, do mundo das
crianças. Sê criança. E brinca, brinca. Cria mundos imaginários e amigos igualmente inexistentes. Cria estórias,
escreve e pensa. Desenha tudo o que possas imaginar. Pega numa faca e faz dela um avião, um termómetro, um microfone. Mas não te magoes com ela. Usa todas as coisas do mundo com cuidado e atenção, tendo especial cuidado com os seres humanos e os animais, depois, com a terra, a água, o ar, o fogo. Joga com os cinco sentidos, os quatro elementos, os três amigos verdadeiros, os dois olhos, o teu coração. Para que não sejas um zero nesta vida. Para que deixes marcas nos outros e não apenas na areia, que o mar acaba por apagar. Há mais marés que marinheiros, mas são eles que pescam para nós o alimento para vivermos. Não tens que comer animais, podes ser vegetariano, mas desde que faças a escolha por ti, não determinada por outros, serás mais feliz. Pensarás talvez nesta altura, que tanta escrita faz-te parecer o "Sermão de Santo António aos Peixes". Poderia ser, mas não tenho a agudeza intelectual de António Vieira, nem quero comparar-me a ninguém. Por isso, não temas tal parecença. São fruta da época, são páginas desse e de outros livros, mas também das minhas vivências, dos meus caminhos.
O meu desejo é que comeces a construir o teu, cada vez mais, mesmo que continues sem gostar de mim.
Não digo isto com tom paternalista. Nada disto serve de filosofia barata e vã para arrumar a um canto da mesa. Prefiro antes que me deites ao lixo que me deixes esquecido no cimo da mesa. Ou como por vezes dizer a verdade, ser duro ou directo pode ser menos doloroso que ignorar, que fugir ao confronto, ao frente-a-frente de ideias. Por agora vou-me despedir. Aonde quer que estejas, um abraço, um beijo, um carinho. Mesmo que não gostes de mim.

17 de Novembro de 2011

Mais Devagar

Eu não sou a cara sorridente da vida.
Faz parte dos meus genes, a humilhação
e o mau génio de gerações

Sou o socalco embriagado do mar
e recordo a juventude com a
futilidade dos actos

Nasço a cada hora que passa
para o abrigo demasiado
do mundo

E fecho-me em copas
sempre que a vida
se ri de mim

Obrigo-me a ser insano
na diatribe iluminada
dos sonhos

Deito-me na tua cama
para morrer cada vez
mais devagar

4 de Novembro de 2011

Amnésia

Amnésia.
Foi tudo o que senti.
Dores no corpo depois do acidente
quase fatal.

Quem me dera uma morte assistida
por computador.
Uma faca na carne putrefacta
da solidão.

Socorro-me das memórias
do antigamente.
O tempo rasura a minha
ausência de afectos.

Perco as linhas-mestras
do silêncio. Volto de
novo ao meu estertor
endócrino.

Deixa-me viver à vontade!

Já que nunca morri
de amores
por ti.

26 de Outubro de 2011

Lovebirds

Tenso,
o olhar rarefeito na paisagem,
a medíocre bonomia da virtude,
e as pétalas quebradas no arpão
silente e mordaz do mundo

Quebro,
a parietal árvore carcomida
nas pulsões incongruentes
da maresia insone

Nada diz faz sentido
nem quer fazer
são palavras a armar-se
ao pingarelho das estrelas

Rio nefasto e poluído
catarses e cataratas
na margem lívida
de pranto e dor

Só agora percebo
os instantes do mar
e o solstício de um
rumor amargurado

Na frugalidade do
abraço, há mais
dedos que anéis
na refeição diária
de um beijo doce

Sumo no deserto
tisanas do olhar
e a concreta aridez
das estâncias termais
plenas de enxofre no ar

Uma folha de hera
num dissimulado limbo
de ouro e prata
Azedume polar no
frio pólo dos afectos

E agora escorrer o mel
da virtude na enseada
reclamada de dúvidas
Um mar sonhado a
beijo e sorrisos

Pássaros deambulam
levemente na areia
salgada e chilreiam
os apetites solares
dos voos permitidos

Descansar as asas
no ninho afável
do amor, em
silêncio pacífico.

Exacta a palavra da anuência dos olhares.



26 de Setembro de 2011

Carta Só

Das estórias que mais me comovem, são aquelas em que inusitadamente, encontro pedaços de felicidade por aí. Como grãos de areia na imensa praia ao nosso dispor. Como saborear um pouco de canela em pó no meu arroz-doce da saudade.
Amor, tenho-o aos molhos, como a salsa. Nessa sopa dos afectos, além dos abraços e dos beijos, a comunhão. Partilha de emoções, de dúvidas e desejos. Um dia ainda me apaixono por um espelho quebrado. Mas até lá, nuvens na minha face ruborizada. De tão afoito que o meu corpo é, no meio do palco da comunicação.
São estórias confusas, dir-me-ás tu, são palavras difíceis na surdina dos vocábulos agrestes, indagarás tu, na ausência de perfil em que te encontras. Desdenho acordos ortográficos, pois fazem-me sentir estúpido no estiolar dos meus sonhos de criança. Quero tratar o bem por tu. Quando eu era velhinho, batia às portas de casa à espera de um doce, sim, porque sempre fui muito guloso. Dizia: "Ó tia, dá bolinho?" E a senhora, ou dava-nos um doce, ou então dinheiro. Sempre preferi algo palpável, que pudesse ingerir no imediato. A gulodice anciã tem destas coisas.
Mas um dia, serei um neófito e descobrirei todas estas palavras difíceis no dicionário da memória. Aprenderei a amar com sentido, sem perambular nas vicissitudes do ciúme e do ódio, do horror e da morte, da pulsão eloquente e mordaz. Um dia hei-de testar-te, pegar na placa de Petri e fazer um esfregaço. Agitar o tubo de ensaio dos teus olhos na praia salgada da felicidade. Depois disso, percorrer o mundo, a pé, ao pé dos limites do tempo. Bater recordes de apneia no pulmão efémero da viagem. Trilhar a má-sorte na enseada dos sonhos. Quando regredir para miúdo, quero só para mim uma gota do elixir da infernal gerontologia. Acabo por ficar só...ssegado, na minha pequenez existencial.

25 de Setembro de 2011

Escrita Permanente

Há sempre um tempo para o descanso, para a pausa dos desejos.
Pelo contrário, os sentidos foram chamados a responder mais e
mais, na diatribe das imagens, dos cheiros e dos lugares.

Senti o hálito da morte, no pranto acérrimo do teu olhar.
Morte num hiato, obuses e palavras a metralhar o ódio.
Destila-se a angústia em escombros sem fim, no vale fértil.

Nas serras, por outro lado, o fresco e o perambular
nas sombras da fantasia. É calma a noite no afago
de amor com que me estranhas. Nas entranhas
do teu corpo, o sexo em doses regulares.

Destaco em papel autocolante as parangonas da saudade
Os carros perambulam em matrículas estrangeiras e
eu semicerro os olhos à saloiice afrancesada

Nesta oralidade abundante, há outrossim uma
difusão acelerada de lugares-comuns, na
aldeia mais incomum de existência humana

São víveres nos lugarejos mais acidentais
da memória humana. Decididamente, este
não é o tempo para a escrita permanente.

18 de Agosto de 2011

Fazes-me Falta!

Fazes-me falta! Tenhas o nome que tiveres.
Sejas mulher ou homem, criança ou idoso,
fazes-me falta ao meu mundo. Ou dito por
outro prisma, sou eu que falto no mundo
dos outros. Sou eu que estou em falta na
cerimónia noctívaga e primordial do amor
na vida dos outros. As minhas deambulações
em peregrinação solitária da morte, são
sempre um arreigado vislumbre da vida
em abraços consentidos. Deixo os corpos
dos amigos nas marés da virtude e eu
vou-me congratulando pelo existir
silencioso e rude nas faldas do deserto
em que me encontro. Tomara que me
encontrasses satisfeito e feliz na verdade
tão desejada pela grande maioridade das
vozes que destilam em goles suaves a
felicidade, a feliz cidade do sossego.
Eu estou na idade dos porquês e do
desassossego do mar, talvez seja uma
feliz idade do Platonismo crónico.

Por ora, depois deste parágrafo e
espaço para respirar, para ouvir
o silêncio, volto a ti, ser humano
que me faz falta na redoma de
vidro em que me encontro.
Para quebrar esta mono tonia
dos meus sonhos, uma palavra
basta, um olhar, um sorriso de
morte na vida precária e oscilante
com que me apresento. Quebra,
parte minuciosamente e em cacos
as amarras do isolamento e entrega-te
ao vislumbre da emoção. Sem medos,
arriscando tudo e apostando ao
máximo no cavalo esplendoroso da
vida mais ignominiosa que existe.


Fazes-me falta, sejas lá quem fores!
Aceito-te, na palavra dada, no traço
riscado ao longo do horizonte pejado
de amor. Entrego-me, na surdina do
desejo nacarado de saudade e alegria.

30 de Julho de 2011

Indefinida Insânia

Um Píndaro alucinado na mesinha de cabeceira
Uma Ossónoba Meridional com ilhas isoladas
em faróis na neblina feérica do isolamento.

O Atlântico mergulha no atol do desencanto
A língua Mediterrânica na tua cara enviesada
que se assemelha a uma melancia dulcíssima.

Os sargaços imensos no meu pé de estrelas
As infusões hipnóticas no sexo occipital da
memória cristalina do teu ventre salgado

Uns abraços deleitosos na alegria do Mar
Umas histórias de encantar no porvir
acérrimo do meu beijo ensandecido.

12 de Julho de 2011

Salsugem dos Dias

São Torpes senhor, as palavras que me dissestes junto à praia.
Naquela enseada, jurámos a pés juntos não nos massacrarmos
nos subúrbios do mar. A falésia ruiu por compaixão aos eternos
amantes da melancolia. Foram as mais dúbias preces que me
soletraste ao meu ouvido insano de tanto peregrinar nos dóceis
labirintos do prazer. Amor nodal em melopeias sem fulgor.

São os sinais que depois vimos em Sines, que nos fizeram rumar
a esse Porto, âncora de uma Ilha no fruto sazonal das bocas roedoras.
Há um lugar Côvo na tua boca silenciosa. E um murmúrio de dor.
Nessas palavras ditas na surdina do presente, amarras a nau da
tua vida aos acasos que te fazem partir, rumo à solidão embriagada.
Por hoje perdoo-te, nas arribas frágeis da minha memória salgada.

9 de Julho de 2011

Corpo em Adiantado Estado de Composição

Sabes o cansaço do meu trabalho?
Estou derreado e já não tenho forças para sair
como todas as outras pessoas, tomar um copo,
divertir-me um pouco.
Suo, uso o meu corpo, a minha voz, a minha mente
até ao limite do impossível. E nunca desisto, não
posso fazer uma pausa, como tu, como vós.
Se estás a criar, a repetir, a condensar, vais parar?
Podes perder aqueles cinco minutos em que descobres
um novo sentido na coreografia, na dança, no texto,
na voz. Por isso, não podes perder a concentração.

E depois de tudo isso, aí sim: parar. Para pensar, reflectir,
discutir o melhor rumo a tomar. Ah, parece que falta aqui
a inspiração e a outra palavra que todos gostam de usar,
o talento. É uma palavra que me soa tão vazia, oca de
tanto se procurar um eco, que é puro paroxismo.

Não posso estar no lugar dos outros, na beleza dos outros.
Resta-me uma cama e a minha fealdade. No entanto,
amanhã será um novo dia e aí poderei recomeçar de novo.
No desgaste rápido do meu corpo e dos meus sentidos.
Ou descansar finalmente, na areia molhada da inquietação.

7 de Julho de 2011

Poema Insalubre em Condomínio Fechado

Tome-se um espaço vazio. Incorpore-se nele o silêncio.
Abasteça-se de combustível para exaurir o seu corpo
de besta ensimesmada. Que arrebente em mil pedaços
na escória do buraco negro em que se meteu eficazmente.

Agradeça aos deuses por viver só e com uma casa de luxo
num nono andar com vista sobre o betão. Carregou-se de
carros, motos, iates e um jacuzzi particular para os seus amantes.
É uma besta quadrada e leviana. A sua obesidade é inversamente
proporcional à sua inteligência. Diz que é feliz, porque tem uma
choruda conta bancária. Mas tem varizes nas pernas e já não sabe
a sensação de andar a pé nas ruas apinhadas de gente. Aliás, não
sabe o que são as pessoas comuns, com quanto sobrevivem.

Vós sois uma baba para mim, por muitas gravatas que use sobre a
sua nulidade. Vós, venerável senhor das mãos conspurcadas, não
passais de mero lixo a ficar com as migalhas dos outros. Vós sois
um infeliz. Vós mereceis este poema. Para dizer ao mundo que
existiu, mas nunca soube olhar nos olhos de alguém, nunca soube
o que era o amor. E sem amor, sois um zero, uma nulidade absorvente
desta multiplicação de seres imundos e rastejantes no vazio silencioso
da modernidade. Aqui jaz então, um ser digno de todo o esquecimento.

4 de Julho de 2011

Passageiros em Casa

Caminhos. Traços riscados na maresia do tempo. Um encontro infinito no mar.
Na soturna roda dentada da vida, vislumbras a falésia, azenha reescrita na
intrépida viagem em que embarcas. Partes desde os flancos da Ocidental
memória, até ao mais secreto lugarejo de África. Diante dos teus olhos, um
oásis pleno de silêncios. Choras secretamente e sem pudor na noite de estrelas
cintilantes. Estás perdido há longas jornadas, mas reencontras-te finalmente.
Sabes que o teu lugar sempre foi aqui, como outros, na filigrana do mundo.

Percebes o que te quero dizer, quando digo que o silêncio é o futuro? E que
o presente é um ruído enganoso, uma melopeia breve e intensa, cheia de
atavismos e grãos de areia na memória? O presente é insidioso, fácil e resplandecente.
Brilha na ociosidade do mundo. O presente é sedutor e acalenta a nossa vã esperança
do eterno. O presente brinda-nos com o fulgor energético da vivência. O aqui e agora
é uma brisa que sopra alarvemente na cabeça dos humanos, que tem a soberba de
recusar todas as outras hipóteses. Sem ele, mais ninguém. O presente é um bicho
solitário e inconsequente. No presente morre-se sempre. O presente é um não-lugar.

Anotei no meu diário de bordo, o fim-de-linha da viagem. Perscrutei no futuro as rotas
possíveis. Dilemas por resolver no percurso em que decido embarcar. Uma vida náufraga
na procura do invisível, as marcas no chão do silêncio pacificador. Diz o provérbio turco:
"Antes de me amares, tens de aprender a correr na neve sem deixar pegadas". Sem
o rasto do cansaço acumulado no limbo das paixões, sem a vaidade occipital dos
eufemismos. Com toda a graça do glaciar de Aletsch, subir e deixar-se envolver no
mundo sensível, sem olhar para trás e sem deixar visíveis marcas de arrependimento.
A viagem das nossas vidas é só de ida e o gelo derrete-se na ausência dos afectos.
Sempre foi assim e o percurso vai de etapa em etapa, até ao prémio de montanha
em que podemos finamente respirar o ar rarefeito da criação do pensamento.

Finalmente, a hora da dança em narrativas por desbravar, estórias marítimas de
andanças e casa-abrigo do nosso eu. Somos passageiros. Andamos a descobrir
qual a casa de cada um. No horizonte vasto da felicidade.