6 de Novembro de 2009

Viajar pela Suíça - pt II (Fribourg)

Depois de um dia inteiro em Bern, segui no comboio estatal da SBB-CFF-FFS (Schweizeriche Bündesbahnen/Chemins de Fer Fédéraux/Ferrovie Federali Svizzere). Não esquecer que a Suíça possui 4 línguas oficiais (Alemão/Francês/Italiano/Romanche). O Romanche é um dialecto minoritário, bastante antigo, do tempo dos romanos, que é apenas falado no leste do país, na fronteira com o Liechtenstein e a Áustria (Cantão de Graubünden). Para concluir, dizer que a Suíça é o país com mais linhas de comboio no mundo. A maior parte do país está coberta pelas linhas. Eis-me chegado a Fribourg. Ao contrário do que pensava, aqui fala-se predominantemente francês.
É sede do cantão com o mesmo nome, que existe desde 1481. É uma cidade moderna, com prédios, mas no centro histórico encontramos algumas belezas. A começar pela ponte de madeira sobre o rio Saane (ou Sarine), as fontes, os edifícios históricos, a catedral gótica de St. Nicolas, a fachada elegante do Hôtel de Ville (Câmara Municipal), com a escadaria e a torre de relógio (séc. XVI). Em frente, no largo, a fonte de São Jorge matando o dragão (1525). Para terminar, o Museu de Arte e História, o Museu Guttenberg e um curioso e bem bonito Museu Suíço da Marioneta. Depois, pelas ruas que descem até ao rio, casas góticas, casas pintadas, galerias, lojas e esplanadas. A seguir, imagens de Fribourg,foi fundada por Bertold IV de Zähringen, em 1157.

Em cima: Hôtel de Ville, a Câmara Municipal de Fribourg
Ao lado: Ponte de Berne sobre o Rio Sarine

5 de Novembro de 2009

Viajar pela Suíça - parte I (Berna)

Vou começar hoje, finalmente, um conjunto de breves textos referentes às viagens que fiz este verão pela Suíça. Um país lindíssimo, com pessoas igualmente bonitas, em que nada do que vemos acontece por acaso. Os suíços são mestres do planeamento antecipado, do rigor nas contas, nos horários, no seu turismo imaculado. Xenófobos? Não me pareceu! Mesmo sem saber falar alemão, consegui comunicar com as pessoas, sempre com um sorriso e respeito por um simples viandante! Mesmo quando estive perdido ao cair do dia, ajudaram-me, deram-me boleia e eu fiquei eternamente grato. Ao ter o meu irmão a viver em Sion (Cantão de Valais),tudo se torna mais fácil, pelo menos para o início da viagem. Decidi comprar um passe, que os suíços possuem em variadas modalidades. Este passe dá para utilizar todos os transportes públicos a um preço barato, em especial o comboio. Mas também autocarros regionais, barcos entre os lagos maravilhosos que a Suíça tem. E claro, bicicletas pelo país, gratuitas, sempre que quisesse circular pelas cidades ou vilas. Preferi utilizar quase sempre o comboio e depois, ao chegar às cidades, fiz tudo a pé. Fiz dezenas de quilómetros em oito dias! E fiquei maravilhado!

Comecemos pelo início: conhecia mal muitas cidades importantes da Suíça. O meu desejo, em primeiro lugar era conhecer essas cidades e vilas, as sedes de alguns cantões (que são 26), o que fervilhava de pessoas, de cultura, de vivências, de paisagens nestes locais. Comecei de Sion, onde apanhei o comboio até Brig, onde tive de mudar de comboio, até à capital do país, Bern. Bern, vem do alemão (Bär), que deu origem a Bärn e depois Bern, que significa urso, pois o duque que fundou a cidade, Berthold V, em 1191, disse que daria o nome do povoado, ao primeiro animal que caçasse. E foi um pobre urso. Ainda hoje, o Cantão da Capital exibe esse urso na bandeira.
Bern é cidade património mundial da humanidade e tem muito para ver.
Desde fontes, edifícios históricos, a monumentalidade dos mesmos (da assembleia federal - o parlamento nacional, o teatro nacional, os museus, as praças, as igrejas), mas também as esplanadas nas ruas principais (fechadas aos carros, mas não às bicicletas e aos eléctricos), a calma, a ausência de confusão (apesar de ser a capital do país). Tudo aqui funciona bem, as pessoas têm uma excelente qualidade de vida. Apeteceu-me não sair mais daqui!
Adorei Bern! Coisas a ver: as praças e ruas do centro histórico (Bärenplatz, Marktgasse, Kramgasse, Gerechtigkeitgasse), o Münster (catedral Gótica do séc. XV), a Rathaus (Câmara Municipal, séc. XV, com fachada gótica), o rio Aare e as suas belas pontes. Do lado sul do rio, a zona nova da cidade, com os seus museus (a Kunsthalle-Museu de arte Moderna; o Museu dos Alpes Suíços - a topografia, a geografia, os hotéis de montanha suíços; o Museu de História de Bern - com as tapeçarias Borgonhesas do séc. XV), o Museu de Historia Natural (lindíssimo museu, muito bem documentado e organizado, com todos os animais possíveis e imaginários), o Museu das Comunicações, o Museu de Armas Suíço (a fama de grandes guerreiros mantém-se para os Suíços). No centro histórico está ainda o Kunstmuseum (Museu de Belas-Artes). Na zona mais elevada, junto à Universidade, está o Zentrum Paul Klee (um grande pintor Suíço, dos meus favoritos). Mais haveria a falar de Bern! Ficam as imagens, que valem por muitas frases!
Imagem 1 - Bundesplatz e o parlamento federal
Imagem 2 - Kramgasse com a Zytglogge (torre do relógio, do Séc. XVI - o Relógio Astronómico, obra de Caspar Brunner)



Imagem 3 - Centro
Histórico de Berna e
o Rio Aare (com a Nydeggbrücke)


Imagem 4 - Berna à noite, no centro histórico, junto ao rio Aare, na Junkerngasse, uma zona nobre e abastada
da cidade.



2 de Novembro de 2009

As Palavras

As palavras estragam-nos o silêncio, meu amor.
As palavras ruborizam a pele clara do desejo,
uma canção triste ao despertar de um sorriso.
O olhar enviesado do passado é uma bússula
para os vindouros mares agitados da ruína.

Na carta de marear da nossa vida, há rotas
em que não nos propusemos navegar. A doce
maresia de um beijo, o prumo fugaz da vitória
são silêncios inquietos da memória e das
cicatrizes das correntes alteradas do mar.

As sílabas e as frases constroem castelos no ar.
Os parágrafos são barcos de papel que se afundam
na inconsequência das marés. Mas as palavras,
as palavras estragam-nos o silêncio, meu amor.

21 de Outubro de 2009

Na Aldeia do Mundo

Na esfera das nuvens, a sagacidade. Um só brilho no poeirento éter.
Compotas e doces conventuais na opalina estação dos desabrigados.
Calcorreio os trilhos da Calcedónia, musa inquieta e anfíbia do desejo.
Vozes e rumores no sopé da serra, ecos rumorejantes de dor e castigo.

A neve brilha no alto da capucha de burel, trabalhos forçados na chuva
dos dias, águas revoltas na dolência da paisagem. Por hoje chega!
As mãos cortadas e calosas da sacha do minifúndio. Acender o lume,
pegar nos toros e quebrá-los com o machado na fogueira dos simples.

O corpo pede alento em vermelhas carnes animais e tintos néctares.
Mais um dia que passou e a aldeia aguarda, silenciosa, o romper de
um novo dia. O lavrador deita-se na cama de ferro, rumoreja umas
preces ao dia findo e enleva-se em sonhos diáfanos por acontecer.

Amanhã é mais um dia de frio e humidade. Nas faldas da serra,
a transumância continua a acontecer. Das Inverneiras para as
Brandas. Para a planície mais abrigada e suave. Neste Outono
de corres douradas, as folhas cantam os dias que passam.

Pastor de flauta na mão: - Agrupa o gado e calcorreia a solidão do mundo!
Só o sol te faz inveja na cara quente e rugosa de uma serenidade sem fim!

13 de Outubro de 2009

Bolinhas de Sabão

Uma conversa Só. Só contigo no universo das nuvens.
Pairas na asa do sonho como cristal enternecido.
Mascaras o silêncio com a beleza do teu olhar.
Intrépido o desejo na corrente eflúvia da paixão.

Nas tuas mãos de ouro, há rotas marcadas
da inteligência, um sorriso na aura do sonho
e as cartas na mesa de adivinhações sem fim.

Perscruto agora o afago delicodoce do teu corpo,
o teu perfume em surdina chamando o mar e
a melopeia inquieta da minha voz tisnada.

Entre o equilíbrio e a catarse, há entropia no
mundo, mas em ti, apenas os poderosos Budas
que alcançam o sublime encantamento da paz.

Perante a tua ausência, rabisco silabas da solidão.
Entre as frases, o desejo e a fortuna sibilinas.
Prefiro a presença ambulante da paisagem,
com o sereno afago quente da troca dos afectos.

12 de Outubro de 2009

A Lição do Mestre

Estreia dia 17 de Outubro, no Teatro Municipal do Barreiro, o espectáculo
"A Lição do Mestre", de Eugène Ionesco. Dois textos absurdos, mas que
nos fazem pensar sobre a sociedade actual. Entre a massificação cultural
e social e a perversidade dos poderosos, que retiram toda a possibilidade
de voz, a quem já quase não tem voz nenhuma!
Uma produção da ArteViva - Companhia de Teatro do Barreiro
Sempre aos Sábados e Domingos, pelas 22 horas. Em cena até 20 de Dezembro.
Contactos para reservas: 21 206 08 60
Teatro Municipal do Barreiro - Centro Comercial Pirâmides, Rua Vasco da Gama
Barreiro

28 de Setembro de 2009

Actor Principal

Uma morte em palco. Dolorosa carne em perjúrio assintomático.
Tudo de repente no esplendor da relva e a queda abrupta no silêncio.

Tudo é demasiadamente verdadeiro no teatro. Só a realidade é falsa.
O teu ocaso é a maior mentira do mundo! Todas as personagens criadas
por ti, são a perene realidade que fica no nosso olhar embevecido e triste.
Não te deixaremos cair, actor dos abraços e dos sorrisos sinceros! Até Jazz!
(em memória do actor Jorge Vasques - 1958-2009)

27 de Setembro de 2009

Com Título

Algum tempo houve em que os sons que ouvia eram uma plêiade de emoções.
Agora, entre a bruma e o silêncio, navego na poesia das ondas do mar.

11 de Setembro de 2009

Semiótica do Terror

Talvez ainda não tenha dado por isso, mas este dia histórico, o que assinala a nossa amizade netlógica, é carregado de uma simbologia especial. Em que o terror espalhou-se por esse mundo fora. Neste 9/11 (o resto não interessa, já dizia o meu professor de matemática- e é por isso que a economia nacional está um caos, pois sempre deitámos os restos fora), assinalo uma guerra fratricida contra os aliados do poder da massificação.
Vale mais um pé de dança no meio da serra que dois computadores a voar!
Sendo convidado para mais uma destas coisas, não poderia deixar de assinalar o acto com a desmesura imensa da minha revolta. Uma revolta antropológica, no sentido de invocar os deuses da Grécia antiga, em que descendo por uma makiné (uma máquina de cena), insurgiam-se no meio do palco (ou da vida) e resolviam todas as questões, todas as tragédias, dando um final um pouco menos amargo à existência das personagens e dos homens.
Posto isto, depois desta prelecção semiótica, resta-me recordar-lhe que agora... vai ser a doer!
Não haverá mais tempo para o balir inconsequente da memória anafada e oca. Tudo o mais, é água. Na ânfora desabrigada do rumor insone, há vozes em surdina ansiando uma guerra que arrase todos os pólos negativos da existência. Só o enxofre poderá salvar a terra de um ambiente taciturno. Tudo o que o ser humano conspurcou, vai ser passado em breve. E eu cá estarei para festejar como Dioniso no meio dos Sátiros essa hedionda espécie que habitou o solo sagrado do vinho e do pão ázimo.
Oliveira secular, dai-me forças para continuar no rasto do silêncio!
Já que tal foi a insistência, eu participo neste fórum, com toda a individualidade do mundo.
Já que os books com face são perversos e acintosamente recusados, é hora de dizer: basta!
Vamos ao terror que a vida é bela!

13 de Agosto de 2009

Arte de Bem Correr a Toda a Sola

Num tronco de madeira a água corria por aí abaixo. Como levadas.
Depois o moinho girava a mó para outras aventuras. Fabricámos
o pão dos amores na velha casa com telhado de colmo. Como partimos!

Depois desse monstruoso tempo das rodas e das tenções, ancorámos
no sumidouro das nuvens. Réstia de esperança no teu olhar embriagado
e um suco adolescente na memória furtiva dos sonhos. Como fabricámos!

Aurora boreal e uma ninfeta em decúbito dorsal, plúmbeo o chão no meu
pé-poema, frescos os ares da dança rupestre nos teus olhos. Homenagem
à Serra acólita no desbravar das paisagens siderais. Como corremos!

A toda a sola partimos no avanço do caminho inquieto. Veredas, fragas e
penedos. Brenhas, penhascos e penhas. Sendas, montes e vales. Música
para os meus ouvidos. Derrapo nas falésias da gramática chã. Como lemos!

Corações piegas, chamaste-nos tu. Não me inquietei, asas para que vos quero
e parti rumo à Calcedónia. O Gerês por horizonte imutável, fímbria ajaezada
da mais sublime preciosidade. Além, as estrelas são a nossa casa! Como falámos!

Caim matou Abel por este ser o mais talentoso dos irmãos. E também a bonomia
das suas acções. Verbo do agitar a corrente mais espaventosa das dúvidas. Em
Pitões das Júnias o pão de centeio no verão e as Neves de inverno. Como dormimos!

Entre as brandas e as inverneiras há rotas de transumância imperdíveis. O teu fio
de escrita sublinha a presença dos bichos e das gentes. Nada mais difícil do que
ser simples. "O que de mim espero é arte para diluir-me no eterno". Como vivemos!

(Entre aspas está uma frase de Abel Neves, a quem dedico esta prosa)

2 de Agosto de 2009

Kathleen Connally



(clicar nas imagens)

Muito pouco virado para a imagem, este blogue rende-se, de vez em quando a alguns
bons exemplos. Serve mais como divulgação. Acompanhem o trabalho de uma fotógrafa
Norte-Americana, de Durham, no estado da Pennsylvania. O trabalho dela incide mais
sobre as paisagens, mas também a presença humana no espaço envolvente. Um trabalho
que a mim me sensibiliza. Espero que gostem. Ela possui um blogue onde partilha as suas
imagens: www.durhamtownship.com. Ela chama-se Kathleen Connally.Boas visualizações!

31 de Julho de 2009

Tempo de Voltar

Voltar à labuta do suor matinal, os corpos em derrisão arriscada da vítima.
Labor do intelecto, frente à ociosidade dos dias e das luzes agitadas da noite.

Foram dias de quarto crescente. Agora estou na fase nova, dos diálogos em
surdina, do movimento síncrono e fidedigno. Deixo o hedonismo para os
adolescentes que se alienam ao telemóvel em mensagens pueris sem fim.

Apenas inconsequência e uma estação estúpida. Podiam existir mais carris
que a linha seria sempre curta para tamanho fastio. Com o som dentro dos
ouvidos, resta pouca cabeça para aprender, para ouvir quem sabe, os pais
por exemplo, ou os avós. Triste sociedade que deita ao lixo a ancestralidade,
os saberes, a experiência, o passado. Fim de texto com memória. Talvez
o silêncio, ou um ruído agudíssimo numa frequência contínua a jorrar entre
cada lóbulo simiesco. Em bolandas anda a vida campestre. Por ora, a praia.

Litoral & água quente, seria o lema destes novos conquistadores da areia
e da piscina, do caos rodoviário e do montão de gente. É o prazer dos dias
de água & sal, entre a hidratação da cinza dos dias e a hipertensão dos
caminhos sempre rotineiros. Por mim, fujo desta massa igual e anónima.

Sou feito de barro, mas só me moldo às mãos da matéria porosa e difícil,
à rugosidade na pele, ao árduo caminho do pensamento, ao deserto abafado
e incómodo. Ao fragor inquieto de uma seiva a escorrer sem fim, ao orvalho
abundante e húmido da memória, à busca sempre dolorosa das profundidades
da caverna. Do eremitério mais ácido e frio que possa alcançar. Na caverna
alegórica e fiel dos mais íntimos filosofares. É tempo de voltar, de um fôlego só.

26 de Julho de 2009

Franco-Português

Da França uma capicua. Foi um silêncio bem sonoro nas planícies alentejanas.
Entre o suor e o inferno, há trabalho de equipa e lágrimas na despedida.
Até um rosto de sangue foi encontrado no meio das pedras e dos menires.

De Portugal uma certeza. Do regresso e da beleza dos corpos em surdina.
Entre uma pele branca e macia e a hirsuta barba dos homens violentos.
As obscenidades desafiam a alma das mulheres e o seu iluminado encanto.

Deste conclave Franco-Português resta a certeza do esforço e brio de todos.
No fim, a alegria da criação (como diria Zeca Afonso) e a liberdade da vida.
Da vida partilhada em grupo, comunicando emoções e afectos pela noite fora!

13 de Julho de 2009

Maravilhoso Lixo

Agora é hora de arrumar o lixo. Na evasão dos sentidos, deambulo pelos
caminhos mais fáceis de caminhar. O sopro da melancolia esvaiu-se aos
poucos. Respiro agora com mais urbanidade. Neste massacre que foi o
tempo rasurado em repetições sem fim, percorri a lúgubre estrada
insone. Na pícara demasia do silêncio, um esgar inefável percorria
a sala áspera e abafada dos abraços. Todos os corpos que rastejavam
para a luz eram a simbiose perfeita de um sonho. O resto, foi uma
cerimónia com todos os presentes na alegria do risco e da vitalidade.

Todas as sombras já foram apagadas pela mimese inaudita do actor.
O perfume do dia foi consumido no dealbar da noite, entre um atroz
cansaço e uma cama macia por utilizar. De um salto, a memória retêm
o percurso feito amor, arte feita carinho e um sorriso ainda por explicar.
Por ora, é tempo de guardar as ferramentas, as aprendizagens feitas
num ritmo inefável de velocidade excessiva. Tempo agora de parar,
de pagar todas as multas. Evasão para outras margens, novos trilhos
do andarilho pobre sempre carregando no saco mais e maravilhoso lixo!

9 de Julho de 2009

Cerimonial para um Massacre

Dia 12 de Julho, pelas 16 horas (repete às 18 h) a Turma de Adultos da Escola de Teatro da
Companhia Arte Viva - Barreiro, apresenta o exercício "Cerimonial para um Massacre",
de Jorge Lima Alves, que segue a estética do Teatro da Crueldade (de Artaud) e o
Teatro Pânico (de Arrabal). Apareçam pois são todos bem-vindos. Entrada Gratuita.
No Teatro Municipal do Barreiro (Centro Comercial Pirâmides - Rua Vasco da Gama).

27 de Junho de 2009

Barbitúricos

Hoje escolhi o meu destino: Morrer às mãos de barbitúricos. Para fugir da real
idade do meu cérebro, da depressão que me condena ao suor dos destemidos.

Não há idade para a frivolidade, mas sim para o despertar dos sentidos. Agora,
sei que chegou a minha hora. Tal como Jean Seberg, actriz maravilhosa morta
por esses comprimidos dentro do seu carro, quero no meu velho Kadett de 1982
desaparecer para aparecer num outro sítio. Não deixo família, filhos e poucos amigos.

Nada de pernicioso, portanto. O mundo continua a resfolegar em fumo e calor,
sinal dos vivos que poluem em demasia este mundo sintético. Sinto-me acossado,
como no filme do Godard. Quero uma vespa para calcorrear as ruas de Paris, Milão,
Roma, Nápoles, Barcelona, Compostela, Porto e Lisboa. Tudo o mais é inodora paisagem.

E pronto, por hoje chega! Estou cansado. Padeço de prisão perpétua na morte.
Saio agora pela porta estreita, como sempre quis. Resta-me o reencontro com a vida.

24 de Junho de 2009

Estou Morto e Arrefeço

Desta feita chegavas à Austrália. Estavas mais magra. Do outro lado do mundo,
nos antípodas, como dizem os que professam a sabedoria dos lugares vindouros,
chegavas plena de felicidade. Sempre em descoberta dos sentidos! Dás-me raiva
ao ver-te assim, desnuda e pueril! Depois, Nova Zelândia. Mas quando vais parar?

E eu aqui, bem longe, a ver os teus percursos, deambulações do eterno retorno.
Regressas sempre da vida, da avidez gastronómica dos sentidos. Deixo a pimenta
da Caiena e procuro o Caril dos desejos. Só as especiarias me dão alento à sedução.
Tudo o resto é vazio, sorte, acaso. Estou morto e arrefeço na tua rota de ida e volta.

19 de Junho de 2009

Dissidência

E agora, que apareceste de surdina? No hemisfério esquerdo da noite, um
olhar, a memória afilada no infinito. Há um lado oculto que é teu, mas desfazes
tudo com os teus sorrisos e a vitalidade de uma criança bem inteligente.

És a criação, mesmo não sendo a do mundo, basta que ergas as cruzes no
altar da inquietação. Depois, sombras e nevoeiros, uma carta de despedida
e a comédia à la tarte. Depois da opípara filosofia dos termos e das conquistas,
partes rumo à Galateia, musa maior do mar. Sempre com vontade de amar!

Desta vez, há espaço para os conluios e as pausas, o mesmo é dizer as
afinidades selectivas de um mar salgado na profundeza da bruma. Mais que
discreta é a ausência de marés na melopeia infinita de um sonho mascavado.

Doçuras à parte, procuro os idiomas mais singulares na esfera restrita de
um caminho pejado de paixão. Pouco mais resta que a morte, nas divisas
ensanguentadas do poder atroz e missionário. São posições que o poder
defende, no âmbito mais persistente dos eventos de fim-de-tarde, à sombra.

Resta-me agradecer as palavras dirigidas, não a mim, mas a todos aqueles
que passaram por cima de mim, na ânsia desenfreada do sucesso a qualquer preço.
Entre os tostões da calçada e os milhões na parada, prefiro a flor, fina e delgada
do desejo nauseabundo. Sem esgotos nem saneamento básico para deslindar
os perfumes do tédio. Socorro-me agora da bússola avariada dos dias do futuro.

Depois do silêncio sacrossanto, a morte lenta em esgar febril. Na sinfonia suave
de um beijo em lá menor, ainda acrescento uma variação enigmática na melopeia.
Por ora é um bequadro no terceiro andamento de um verso, uma sílaba vivace
num andante sustenido. Párias audazes, fitas multicolores e a seiva a crescer.

Falo-vos do medo, a sedução do abismo na orla inaudível da razão. Licores e
promessas, eternas pedras que moem os ventos ao desafio. Tudo isto podia
fazer sentido, se a vida fosse humanamente uma dissidência dos sentidos.

16 de Junho de 2009

E no entanto...

E no entanto desapareceu! No meio do comércio lisonjeiro que é a pátria,
um rasto de poeira foi deixado, indelével. Mas procuras em vão por essas
escadas ondulantes, para a salvação da tua alma. O resto é escroto, numa
bolsa alienada sem fim à vista. No prepúcio da vida, escalas o horror em
deambulações espúrias, metal e fontes carcomidas de desejo. Na eflúvia
estação das torrentes e dos aflitos, vais de joelhos até onde te seca a
saudade de um dia espúrio. Nem já o fado te pode salvar das preces ao
desafio! Rumorejas uma sílaba apetecível no céu da boca dos espantos.

E no entanto, compareceu! Alinhou na equipa inicial dos histéricos eunucos,
driblou os comparsas na sugestão occipital da memória e fez-se ao limbo
como quem espera por Cristo. Na parábola mais famosa, viram todos os
jogos pela televisão da Ana, que era lógica em tudo o que fazia e dizia.
Momentos mais tarde, surge um clarão das trevas. Os governos diziam
que era o pranto do demónio, um teatro da crueldade atroz. A oposição
ripostava e culpava o mau uso do Português governamental, afirmando:
-O que o senhor queria dizer era credulidade atroz. O nosso povo possui
um demónio que carrega o fardo da credulidade! O Crédulo é o ópio do povo!

Depois disto, sempre uma neblina que nos consome de fome. Idílicas são
as fontes do desvario e o polvo é quem mais tentáculos ordena nas missangas
da vida. A prestar contas todos os dias, lá vai o defunto na redoma de vidro.
E numa brisa suave, um diadema de prata em teu ventre, gasolina a resfolegar
quilómetros de insensatez. Os carros não se querem bonitos, nem mesmo as
paisagens emolduradas. A fealdade é rainha do pretérito-mais-que-presente
no perfeito corpo a deambular na salsugem. E no entanto, era ela, desde sempre!
Vernáculo lunar e adiposo, as marcas do pó bolorento e rude eram tuas desde
a partida. E no entanto, outro entretanto foi ficando. E no entanto, era eu!

13 de Junho de 2009

António Variações - 25 anos de Saudade

Hoje assinalam-se os 25 anos do desaparecimento de um dos grandes ícones da música nacional dos anos 80, aquando do surgimento da música moderna portuguesa. Ele desbravou, juntamente com grupos como os Heróis do Mar, GNR, Sétima Legião, Rui Veloso, Táxi, Trabalhadores do Comércio,Grupo de Baile, Xutos e Pontapés, UHF (entre outros) um percurso singular e irrepetível.
António Variações, que dizia que a sua música situava-se entre Braga e Nova York
(entre as suas origens, de Amares, concelho interior perto de Braga e a pós-modernidade artística da grande cidade Americana), consegue de facto, passados estes anos, conglomerar
um repertório de grande actualidade e vivacidade comunicativa. Nas suas letras e músicas respira-se a novidade, os ritmos do disco-sound vibrantes e dançáveis, mas também
a contenção saudosística de temas mais colados a uma base folclórica ou fadista
(temas de Amália Rodrigues, uma referência para o artista).
Tudo isto para assinalar a perenidade do seu legado artístico (basta ver o revivalismo de
muitos cantores nacionais ao reinterpretarem as canções do António), que continuo a ouvir sempre e cada vez mais, no meio do marasmo musical actual. Ouvir António Variações hoje
é dar sentido à voz, à fala de um artista maior e avançado para o seu tempo. O seu ideal de liberdade, a sua atitude perante a vida e o modus vivendi dos portugueses faziam falta
nos dias de hoje. Para mim, uma referência nunca esquecida!

9 de Junho de 2009

O Bolso

Gosto de andar por aí, com a mão no bolso, num misto de descontracção
e desafio irónico à vida agitada de quem sai a correr dos transportes públicos
de uma qualquer cidade sobrelotada. Olho para as minhas calças de ganga.
Têm o desenho perfeito para esconder as minhas alvas e frias mãos. Lá dentro,
tenho um mundo inteiro para dez dedos com o frenesim da descoberta. Ficam
assim, às apalpadelas ao tecido suave e um pouco sujo do bolso. Lá, existe areia
dos dias de praia com um livro na mão, o cotão dos dias seguidos sem pôr a lavar
a calça, já surrada de tantas cadeiras, bancos, escadas, rochas, camas. À volta deste
bolso, um mundo feito de indústria. Os rebites do pequeno bolso, onde pode caber
uma moeda meio esquecida; um isqueiro, caso fumasse; ou um amuleto qualquer,
se acreditasse neles. No bolso grande, reina a maioria. Numa área maior, mais artifícios
posso colocar. Desde o passe que almeja socializar com a transeunte do autocarro ou a
vizinha do metro, o telemóvel que fica quente e mais silencioso neste bolso, um cartão
multibanco, leve e pronto a gastar, uma nota, um papel, uma concha, tanta coisa pode
caber neste meu bolso. Mas o que mais gosto é chegar ao fim do dia e encostar-me a
uma conversa com as mãos meio descobertas, à espera de comunicarem. E quando
chega a sua vez, elas libertam-se e são demasiadamente expressivas. Depois do calor
comunicativo é hora de recolher, reflectir e por fim, descansar nessa concha suave,
silenciosa e perfeita que é um bolso. Esquerdo ou direito, lateral, traseiro. Um bolso.
Uma muralha perfeita para os dias em que as minhas mãos são um castelo de emoções.

3 de Junho de 2009

Waiting 'Round You

Deriva do olhar. Enviesado rosto que se me estende num lugar apetecível.
Rumorejante e inexplicável ventre. Uma sombra lúgubre na memória das
datas. Deriva de tudo, um suplício, uma mão atada à parede e contorcendo-se,
pedindo perdão pela gravidade dos corpos, uma farsa de Newton, onde as
maçãs apodrecem no colo suave de um beijo. No teatro da derrisão, há
uma anacronia de genes e as antíteses são mais teatrais que uma real
construção de sentidos perenes. A música agora é bastante forte, não pelo
seu volume, mas pela emoção que dela deriva. Desta feita conto-te o que
ando a ouvir: Tindersticks. Waiting 'Round You é o tema. Desta vez não me
deixo ficar por meias palavras, sentidos ocultos, escrita rasurada. É do tempo
presente que te escrevo, doce ouvinte das estórias em surdina. Precisava de
um campo minado onde plantar amor em hectares sem fim. Ou então, longos
abraços ao som desta música celestial. Só o amor nos irá salvar! Parece cântico
de igreja de dízimo nos bolsos dos que mandam, mas apenas é uma frase solta
no gerúndio da vida, numa viela estreita de um subúrbio por descobrir. Em vez
de querermos encontrar, devemos descobrir a vida e os outros. Descobrir é dar
ensejo ao pássaro nervoso que olha para todo o lado, que deveria estar em nós.
Lembro-me quando me chamaste isso, numa noite em que nos estávamos a
descobrir. Fiquei tão contente com essa deixa. E eu disse a réplica ideal: sou
assim um animal pequeno e nervoso, piscando os olhos à beleza. E há tanto que
pisco para ti, para os teus olhos, para a tua prosódia, a linguagem infinita do teu
corpo, indecifrável tantas vezes. Neste mistério fiquei. Num passado tenso feito
presente mais-que-perfeito. Era a última fala possível deste drama, um solilóquio
encenado por ti e interpretado pela imaginação deste dramaturgo que procura a
todo o custo encontrar os elementos perdidos na poeira do caminho. No deserto
que fui encontrando, além das pedras e das raras plantas, descobri um oásis onde
exprimir-me. Estava iniciada a viagem para os caminhos da imaginação. Só no fim
soube que eu, era apenas eu. Um eu composto de muitas camadas de tu, de muitos tu,
muitas segundas, terceiras pessoas do singular. Num plural de melodias e sons afectivos!

28 de Maio de 2009

Forma de Estar

Forma de estar. Módulo encaixotado e rígido. Uma baliza que te impõe o mesmo resultado.
Se soubesses dos desfechos do mundo, estarias fora dessa gaveta, uma caixa de sapatos
onde os bichos da seda se encontram. Procuraste as folhas de amoreira para as alimentares.
Depois da humidade do lugar, ei-las, as árvores naquela volta do duche. O dia estava
realmente ventoso e húmido e só a tua pequena casa de sonho no meio do monte te
predispunha a falar comigo. Fizeste o jantar com muito carinho, com toda a candura
que transportas por esses lugares fora. O vinho fui eu que o trouxe, um daqueles do
Douro que ambos apreciamos, entre uma garfada e um beijo. Se soubesses o quanto
gosto de ti! Mas não sabes, porque vives a vida como se não houvesse amanhã. Um dia
acertarás no calendário, mas enquanto tiveres de riscar os dias a lápis de cor vermelha,
esquecerás o simples e essencial: o amor em tempos de guerras, entre as palavras em
demasia e a imagética do que se não diz. O Amor é uma lança que fere quem se deixa
ficar na frente de batalha da paixão. O romantismo pode salvar o golpe em demasia
da futilidade das desavenças. Na melancolia que escolho para o meu recolhimento,
despejo a última gota no meu copo solitário. Já foste embora da tua casa e eu deixei-me
ficar: na utopia, nas lágrimas salgadas da misantropia. Deixaste-me uma carta de
chegada, na despedida mais atribulada do mundo. Guardei-a para sempre nas minhas
memórias e voltei finalmente à minha casa-abrigo, um eremitério sem calendários
de partida nem chegada. Agora, só o calor e a seca são a companhia dos dias imperfeitos.

22 de Maio de 2009

Algum dia Perceberei o que Escrevo?

A estante. A agenda com todos os últimos registos de vida. Parto daqui para fora.
Acabo de queimar a câmara dos desejos naquela casa perversa. Agora, só escombros
e dor. A morte de alguém, um dia colorido na minha hirsuta barba e um cabelo agitado
ao vento, destrambelhado. Os pés nus e a cara rija. Frio é o que não falta na serra da
Peneda. Castro Laboreiro, Lamas de Mouro. Aqui estou bem, posso dormir descansado
de todos os crimes cometidos. Um bornal ajustado à razão do meu corpo, a sudação de
uma pele e um olhar de garrano atento entre as urzes e os vidoeiros. Alta roda da noite.

Desaparecendo na surdina ordinária do deserto, consomes-te no frágil nevoeiro da
fidelidade. Prefiro a suprema ironia de te ver pelas costas. Há sempre uma carta tardia,
um horóscopo sincopado na tua infantilidade. Acreditar nas datas perfeitas e que mais?
Só tens solidão e mágoa, pútrida cara enfadonha e ensimesmada. Egoísmo e narcisismo.
Foi isto que me disseram sobre as novas gerações, fechadas nos seus sons e nos aparelhos
de tapar os ouvidos para o mundo. Sempre a mesma ausência de silêncio que já diagnostico
há décadas, fisiologista dos sentidos que sou. Vem, com a esperança gasta das horas na
plúmbea arte de manobrar as mãos. As mãos e os dias, esfera inacabada do sucesso,
planta de altar-mor enegrecida, Mértola é já ali. Os Mauros da Mauritânia foram agora
descobertos. E de sol a sol se planta o trigo no Alentejo sarraceno, volta a Portugal da
eternidade, na perenidade de um sonho. Rufam os tambores. Baixo motor do dia.

Queria um complemento poético, receitado três vezes ao dia. Verbos incondicionais,
mente inquieta, horários por cumprir em demanda da saudade. Já chega de relógios
e pontes, sempre o desejo em particípio passado, letras e mais números, álgebras
lineares num quarto vazio. Fecha agora a porta, com um sorriso nos lábios e some-te
da vista dos mortais! Na metástase do pensamento, há adolescentes a mais nas fotos
de consumo imediato. Mastiga e deita fora a harmonia do mundo. Tanta zurrapa nas
frontes, pistola a atirar ao ar mais medo que consolação. Um torpor que te mata e
deixa-te na prisão insalubre. Escolheste a bifurcação errada e não sou eu que te vou
ensinar o caminho de volta, Ícaro. Nos teus labirínticos destroços, procuras em vão
Dédalo e choras copiosamente. Quem te mandou ser tão perfeccionista? Quem te disse
que só de realidade é feita a argamassa dos humanos? Ah, para que fazes tantas perguntas?
Procura antes o fio de Ariadne, tua única e derradeira saída. Guarda a criança dentro de ti,
perde-te nas planícies imorredoiras, sacode os pés contra a terra dura e seca. Cresce
e aparece! Vai já passar, o mito acalma-se na fogueira das vaidades. Preâmbulos e
didascálias. Apetecia-me agora escorrer os livros com água-benta da poética militante.
Quero cravar uma faca na lombada do desejo assassino, livros por encomendar. Sonho
agora com o desejo de escrever um pensamento, um poema apenas. Não consigo!
Quem me dera perceber-me! Algum dia perceberei o que digo, o que soletro, o que marco?

Fachadas, náufragos nas pedras frias. Os cornos de lana caprina são saltos no escuro
de um pensamento tergiversado na névoa de um sonho. Palavra gasta e usada, palavra
prostituída, calcada, rasurada, comida. Deus e o homem são inimigos fidagais. Um som
inquietante chama-me lá de fora. Tenho medo de sair, tenho medo das sombras nos
olhos cinzentos da morte. Uma nova promessa de acordo alucinado. Um novo prémio,
das utilizações mais agudas e rápidas na história do saber digital. Falo de dedos, carpo
e metacarpo. Torso e banalidades de última hora. Chá e torradas para o caminho.
Violações e pestes no caminho de Pinter. Um dia farás anos e oferecer-te-ei um livro.
Agora vou-me embora, apetece-me voltar ao cadafalso, com um sorriso nos dentes
e uma cefaleia incomensurável. Masturbo-me agora em silêncio, deixai vir a mim
os remorsos de uma moral em queda livre, olhos que me reprimem e dão-me mais
vontade de acabar com tudo, com a inveja, a putrefacção das cidades, os esgotos e
as vozes de protesto. Ah, quero regressar, quero acordar, chamas, nuvens, a loucura.
Deixai-me cair na cama dos horrores! Esta realidade é demasiado perversa e mortal!
Chega. Chega! Quando queimarei tudo isto? Quantos fogos-fátuos ainda terei de cometer?

21 de Maio de 2009

João Bénard da Costa


In Memoriam de JBC. Grande personalidade, um apaixonadíssimo cinéfilo.
O Senhor Cinema. Graças a ele, desenvolveu a Cinemateca, que nos continua
a dar os seus bons filmes. Obrigado, tu és o "Johnny Guitar". Até Sempre!

20 de Maio de 2009

Foi Longo o Silêncio

Foi longo o silêncio. Demasiadamente longa esta toalha que estendi às emoções.
Agora percorro todos os transportes públicos numa ufana e triste memória.
Acho que te vi. Saías do teatro, tal como eu. Encontrei-te de novo no metro,
na Praça de Espanha. Infelizmente, eu ía para a Baixa e tu para outro percurso.
Sei lá se para o Zoológico, se para o lógico Alto dos Moinhos ou o ilógico Colégio
Militar barra luz. Bem que eu precisava da tua luz, da tua presença. Uma palavra,
uma só palavra e eu seria o teu alfabeto de idílicas memórias. Porque me fecho
na concha do meu sofrer, na minha ingratidão incomunicável? Sou o perdedor
nato das vivências e dos sorrisos. Agora sucumbo nesta falésia prenhe de silêncio.

O rumor das vozes em demasia, a surdina dos bravos soldados da Prússia. No
hospício em que me encontro, há paixões imensas nos olhares ensanguentados
da guerra. Quente guerra na gruta ascensional da moral. No tractor de Müller,
vi restos de corpos inclinados para o céu. Fuligem espalhada na aragem das
colinas. Volto de novo o olhar a Lisboa, cidade enferma de vozes que me sacodem
a pele, que me eriçam as rugosidades e partem violentamente para uma nova
estação, um novo transporte que me apazigue a escrita. Agora estou bem, sinto-me
a marchar ao vento no sanatório desabrigado e vazio. Em vão procuro de novo
a órbita estelar do teu corpo, minha mão transfigurada dos açoites, carne viva
sem cor, olho-te à distância, anseio-te e perco a cabeça, desisto! Silêncio, silêncio!

10 de Maio de 2009

Nublada Poética

Nublado o mundo. Petrificada na orla do bosque, a memória. Sonhos
salgados no sargaço mais profundo do teu rosto. Agora percorres a
enseada cálida das saudades e fixas um ponto nos horizontes das
tuas utopias. Na fímbria delgada do mar revolto, há todo um rochedo
mental que te inibe no deambular da tua viagem insone. Penso em
ti, poema imperfeito e ridículo que te ofereço em surdina. Acaricias
o papel que te ofereço, mergulhas no mar profundo e na salsugem
do teu corpo, deixas-te ficar entre as nuvens passageiras e o meu
pulso, em que te agarras com delicadeza. Nos meus dedos ainda
existem perífrases de fantasia. Por ora, apenas um calor inaudito
na gíria anódina dos abraços que festejamos na corrente do mundo.

6 de Maio de 2009

A Propósito da Feira do Livro 2009

"A Literatura é perfeitamente inútil. A sua única utilidade é que ela ajuda-nos a viver."
Claude Roy, Escritor
É por isto que fui ontem e continuarei a comprar livros. Não vou à Feira do Livro, vou
dialogar com eles, os livros. Os livros são como as pessoas: uns mais altos, outros mais
gordos, outros minúsculos, outros com uma óptima aparência, outros discretos, alguns
gastos pelo tempo, usados, dobrados, tisnados e amarelados pelo sol. Outros ainda por
abrir, ingénuos, ainda por rasgar as suas páginas com uma faca (Edições Sá da Costa).
Mas mais importante que isso, é quando se abrem (as suas bocas?). Quando comunicam
connosco. O que nos têm a dizer. Aí temos os bacocos, os inúteis, os fúteis, os clássicos,
os imponentes, os vaidosos, os amorosos, os desastrosos, os irónicos, os divertidos, os
solenes, os religiosos, os ateus, os comunistas, os situacionistas. Enfim, os que promovem
a guerra, os que promovem a paz, os que votam, os que não votam, os moribundos,
os esquecidos, os abandonados (vide em Alfarrabistas), enfim, uma plêiade de homens-
-livros. Eu prefiro os bons! Os que me tocam, que me olham nos olhos, que me estimulem
intelectualmente (quantos livros para a infância estimulam-me mais que outros "ditos"
para os adultos?), que me convidem de soslaio, com charme, sem alarido e sem pressa
num tom apaixonado: "- Queres levar-me para casa?"

5 de Maio de 2009

Féretros da Luz

Há horas amargas do sentir! O devir da luz estava convosco.
A morte saiu à rua na infâmia infinita do universo. Entre o teatro
e as sombras, um trabalho árduo nas favelas dos Oprimidos.
Um serviço público e social, graças à tua dedicação, Boal.
Pela causa dos desprotegidos, por um teatro sério, nobre, ético.
Obrigado pelo legado que nos deixaste, por podermos nas ruas
transformar as utopias em realidade, porque é de teatro real
que falamos. Vamos continuar esta luta terrível e desigual!
É de um anjo que vos falo. Um anjo do desespero, como diria
Heiner Müller no seu poema? Talvez. Este era um homem
discreto, entre os balcões da Bertrand onde trabalhou em
prol da leitura e a fantasia de todos os seres que ainda têm
em si a criança de olhos brilhantes nas estórias dos imortais
desenhos animados na televisão. Foi graças a ti, Vasco Granja,
que descobri a boa animação, especialmente a tua predilecta,
a dos países de leste. Nos anos 70 e 80, vivi apaixonadamente
esse sonho de ser sempre criança e imiscuir-me nas ficções,
nas cores, nos sons dessas pequenas obras de arte. Depois,
a tua voz, a tua figura, eram o conforto e a protecção que eu
precisava. Essa sensibilidade, essa calma, eram motivo para
não perder os teus programas. Como se fosses o meu pai a
contar-me todas as estórias possíveis e imaginárias, do lado
de lá do ecrã, mas tão próximo igualmente. Obrigado Vasco,
meu último herói da Banda Desenhada. Estarás sempre no
meu imaginário, na minha criatividade feita sonho, pureza,
sensibilidade e vida humanamente ética. Até Já Vasco!

São ambos Féretros da Luz, no meio de um mundo de sombras!

2 de Maio de 2009

Maio (entre Paredes e Zeca)

Maio. Em Coimbra já se agitam os choupos no Mondego.
E a guitarra sibilina de Carlos Paredes já toca no largo da Sé.
Nada de nostalgia nem tradição. Falo de uma Cidade e dos
seus momentos de solidão. Das renovadas gentes que chegam
e partem da urbe da passagem. Transmutação para vida
adulta, rasgar com o passado. Usar a memória e o coração
e fazer-se à estrada. Por ora fixo o olhar em Santa Clara,
com mosteiro e os doces da minha gulodice. Fora isso, um
cheiro a flores do campo e uma ponte de dúvidas na via
acidentada do futuro. Hoje apenas, um fruto maduro de Maio.