27 de fevereiro de 2015

Tacto

Hoje não conseguia dizer mais nada
Estava exausto o ser que tinha muito
sumo de humano. Olhava para os
demais com uma alegria contagiante,
mesmo que se condoesse com a
miséria e a injustiça por esse mundo
fora. Levava na sua bagagem esse
manancial de rotas, de paisagens,
mas sobretudo de pessoas de pele
e osso. Uns bem duro de roer, outros
na anódina e bonacheira truculência
das cartilagens por desbravar.

Apesar do cansaço no olhar, apesar de tudo e de todos
continuava a escrever e a tocar nos corpos de quem amava
e havia tantas estórias por contar, entre mulheres, crianças,
velhos e velhinhas, homens imaturos, homens egocêntricos,
homens boçais, homens animais, homens infiéis, a todos,
sem excepção, tentava tocar-lhes profundamente, sem
a mácula do desejo nacarado de moralismo. Apenas uma
chusma de sensibilidade e de tacto. Porque é de falta de tacto
que os homens têm falta. E a falta de tacto não lhes permite
vislumbrar esse sentido precioso dos afagos e da suavidade
dos abraços em magnéticos campos do sentir intenso, dizia ele.

Quando o cansaço por fim se apoderou da escrita
dormiu profundamente e sonhou

No relento da sua ensimesmada solidão.
(Ilustração de Nick Dewar)