5 de maio de 2009

Féretros da Luz

Há horas amargas do sentir! O devir da luz estava convosco.
A morte saiu à rua na infâmia infinita do universo. Entre o teatro
e as sombras, um trabalho árduo nas favelas dos Oprimidos.
Um serviço público e social, graças à tua dedicação, Boal.
Pela causa dos desprotegidos, por um teatro sério, nobre, ético.
Obrigado pelo legado que nos deixaste, por podermos nas ruas
transformar as utopias em realidade, porque é de teatro real
que falamos. Vamos continuar esta luta terrível e desigual!
É de um anjo que vos falo. Um anjo do desespero, como diria
Heiner Müller no seu poema? Talvez. Este era um homem
discreto, entre os balcões da Bertrand onde trabalhou em
prol da leitura e a fantasia de todos os seres que ainda têm
em si a criança de olhos brilhantes nas estórias dos imortais
desenhos animados na televisão. Foi graças a ti, Vasco Granja,
que descobri a boa animação, especialmente a tua predilecta,
a dos países de leste. Nos anos 70 e 80, vivi apaixonadamente
esse sonho de ser sempre criança e imiscuir-me nas ficções,
nas cores, nos sons dessas pequenas obras de arte. Depois,
a tua voz, a tua figura, eram o conforto e a protecção que eu
precisava. Essa sensibilidade, essa calma, eram motivo para
não perder os teus programas. Como se fosses o meu pai a
contar-me todas as estórias possíveis e imaginárias, do lado
de lá do ecrã, mas tão próximo igualmente. Obrigado Vasco,
meu último herói da Banda Desenhada. Estarás sempre no
meu imaginário, na minha criatividade feita sonho, pureza,
sensibilidade e vida humanamente ética. Até Já Vasco!

São ambos Féretros da Luz, no meio de um mundo de sombras!