4 de abril de 2008

Deambular por Aí

Primeira vez. Um dolente e estranho rumorejar de águas. Passeios oblíquos e uma ravina longe de ser perigosa. Massificada sociedade das esperanças e dos ritos. Na penumbra dos heróis, há seres boquiabertos perante a estupidez do mundo. Horrores e sevícias de um planalto agitado ao vento insalubre dos mortos. Chegou a hora da casa, com plasma, internet e jogos electrónicos. O futuro é uma boneca-robot, pronta a aceder a todos os nossos desejos. Por agora (e na hora da nossa morte) há apenas mulheres-a-dias e picheleiros à noite. Prefiro as carvoarias do silêncio e um breve regurgitar de cansaços. Limpa-chaminés da cólera são feras amansadas na neve. Muitas Montanhas Rochosas depois, encontro os Vagabundos do Dharma e Viajantes Solitários. Tudo empresas de grande dificuldade e uma paz interior. Queria ter o teu sorriso de abeto e um tronco de Sequóia. No lodaçal das paixões efémeras, há rios que abafam as memórias do estio, há rugosidades numa folha de papel e uma obra de arte por começar. Vou fazer-me à vida, antes que ela me faça seu escravo. Quero produzir uma morte na violência da criação. Um espectáculo a grande altitude em serranias por inventar. Neste momento solene, quero pássaros para colorir as minhas feridas. Na esfera exangue da humanidade há ainda desfechos inesperados. Inevitável correria do meu motor a jacto numa curva apertada. Perco-me no objectivo proposto, pois as rotas da imaginação não possuem placas a sinalizar a felicidade. Adormeço à beira da estrada, junto à amendoeira em flor. Por companhia, os bichos do mato e as estrelas silentes de desejo.

2 Comments:

Blogger Ariel Sharon Tate usou da palavra

E os nossos desejos são desordens... a minha desordem com desejos etc e tal.

Os textos ganham outro ritmo quando assim alinhados. Ao invés da suspensão do "formatopoema", como se ficassem nas entrelinhas a dizer: "olhem para mim, sou uma estrofe!" ou "parem os relógios para que me possam apreciar", este deambural é uma locomotiva que se lê de um fôlego.

08 abril, 2008 17:07  
Blogger odeusdamaquina usou da palavra

Apesar de terem acabado com a Linha do Vouga (e outras), ainda há locomotivas a folegar por aí!
Abraço!

08 abril, 2008 19:42  

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