12 de outubro de 2007

Pobreza Zero

Entusiasmadas, entrámos na camioneta. Munidas de algumas garrafas de espumante – que o Champagne sai caro e estudantes contentam-se com pouco –, lá fomos até ao Algarve a rir e a fazer planos. Era a viragem do milénio e não receávamos o juízo final. Eu decidi deixar de fumar. A Joana queria ser médica. E a Vera ia encontrar o amor da vida dela. Éramos jovens (ainda o somos, só um bocado menos). Estas eram as resoluções que iam mudar as nossas vidas. Quem sabe o mundo. Ou assim víamos as coisas. Não me lembro bem da passagem de ano. Por essa altura as garrafas já estavam vazias. Lembro-me do final da noite. As três cheias de frio na cama, com novas promessas. No ano seguinte levaríamos um edredão. E seríamos amigas para sempre. Felizmente, outras pessoas faziam resoluções que, estas sim, podiam mudar o mundo. Na Assembleia Geral da ONU de 2000, 189 chefes de Estado e de Governo assinaram a Declaração do Milénio, formulando oito objectivos de desenvolvimento, a alcançar até 2015. A saber: erradicar a pobreza extrema e a fome; alcançar o ensino primário universal; promover a igualdade entre os sexos; reduzir, em dois terços, a mortalidade infantil; reduzir, em três quartos, a mortalidade materna; combater o VIH/SIDA, a malária e outras doenças graves; garantir a sustentabilidade ambiental; criar uma parceria mundial para o desenvolvimento. Passaram-se sete anos e, tal como eu continuo a fumar, os líderes políticos mundiais não cumpriram as suas promessas. A 17 deste mês assinala-se o dia mundial contra a pobreza. É uma boa altura para exercer pressão sobre os nossos governantes. Somos a primeira geração que pode erradicar a pobreza do mundo. Existem meios, tecnologias e desenvolvimento para o fazer. Os Objectivos do Milénio são absolutamente viáveis do ponto de vista técnico e económico. Exigem apenas vontade política por parte dos Estados. E aí reside o busílis da questão. Também só depende da minha vontade deixar de fumar. A Joana já é médica. Acabou o curso este ano. A Vera diz que já encontrou o amor da vida dela. Estão a viver juntos. E continuamos amigas. Se eles cumprirem as promessas deles, eu cumpro a minha. Deixo de fumar. Erradica-se a pobreza e salvam-se os meus pulmões. Já só temos sete anos.
Por Rita Silva Freire, in Jornal de Letras nº 966

2 Comments:

Blogger eu usou da palavra

Todos temos uma história! A minha é diferente mas é minha. Estaciono no que gosto em natureza http://entre-as-flores.blogspot.com/. Espero que entre o ir e o vir ter crescido.
ex-afectos, novos afectos...

12 outubro, 2007 19:48  
Blogger Ariel Sharon Tate usou da palavra

Pois, miúda que és publicada no Jornal de Letras, já que andas numa de fumar e de Protocolos e de Pobreza Zero - e Quioto é anagrama de Tóquio, que máximo, e há também Quito, no Equador, e Quitoso para eliminar as lêndeas. Miúda, junta o fumar e o Quioto e por aproximação põe-te a fumar chinesas, vais ver que daí a nada estarás a surfar, tubos e mais tubos, chegarás ao Protocolo da Bolha Zero em no-time, e o teu papel na sociedade será de alumínio.

13 outubro, 2007 00:55  

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