21 de março de 2007

A Purga de Estaline (Parte I)

Era um dia normal de trabalho. Abu Orabi levantou-se da sua cama espartana e percorreu alguns passos em direcção ao armário onde guardava uma caixa forrada a veludo vermelho. Dentro da caixa estava uma medalha de metal reluzente oferecida por alguém muito poderoso. Como se ainda fosse possível brilhar mais, Abu esfrega a medalha energicamente. Por momentos pára. Fica alguns segundos siderado a pensar no valor simbólico que aquela medalha representa para si. Coloca-a na caixa. Veste a farda de trabalho e calça as suas botas visivelmente desgastadas.
Após este ritual matinal, Abu dirige-se para a cantina colectiva da empresa Stalinskaia onde, juntamente com 2485 trabalhadores toma o seu pequeno-almoço que em nada difere em qualidade ou quantidade da refeição dos restantes operários. Um todo-o-terreno Lada Niva de cor verde-azeitona conduz Abu ao seu destino, o estaleiro da obra que lhe tinha sido confiada. A importância e grandiosidade desta obra iria orgulhar a Pátria Socialista.

Abu era um característico cazaque e portanto possuía uma fisionomia própria dos habitantes da Ásia central. Pele de tez escura e olhos rasgados. Não era muito alto, gozando no entanto de uma grande robustez física, e um forte carácter de liderança tal como os seus antepassados nómadas. A sua liderança inata foi aliás, o factor decisivo que o Partido teve em conta aquando da sua escolha para dirigir uma equipa de técnicos e operários responsáveis pela instalação da primeira central nuclear para produção de energia eléctrica no Cazaquistão. Nasceu em Leninbad, uma pequena cidade situada perto das margens do lago Balkhash, a 600 km da capital Alma-Ata. Até aos 19 anos permaneceu em Leninbad com o seu velho pai, Khalipov, um veterano que tinha servido heroicamente numa divisão de baterias antiaéreas na batalha de Estalinegrado durante a Grande Guerra Pátria. No decorrer da guerra, Khalipov perdeu um braço. Apodreceu com gangrena quando um dia se deixou adormecer na neve. Sofria muito do estômago devido à úlcera que tinha desenvolvido pela privação de comida. Vive agora de uns míseros rublos que o Estado que envia, servindo-lhe apenas de consolo o facto ser considerado herói de guerra em Leninbad onde as crianças não se cansam de ouvir vezes sem conta as histórias do velho veterano. O nome Abu Orabi, não é tipicamente cazaque. Tinha sido escolhido pelo velho Khalipov como uma homenagem ao camarada de guerra jordano que pereceu junto de si depois de ter sido cravejado com uma rajada de um caça Messerschmitt. Abu Orabi, o jordano alistou-se nas Brigadas Internacionais, solidarizando-se com os camaradas do Exército Vermelho na defesa de Estalinegrado. Era um jovem intelectual, apoiante e impulsionador da filosofia marxista – leninista. Ensinava Arqueologia na Universidade de Pietra e tinha fundado o Partido dos Trabalhadores da Jordânia, partido clandestino no então protectorado inglês. Tinha sido um bom companheiro de guerra. Khalipov quis homenageá-lo dando o seu nome ao filho.


Na impossibilidade de mandar o filho estudar em Moscovo na Universidade Estatal Lomosonov, Abu ingressara na Escola Politécnica de Alma-Ata, onde iria frequentar Engenharia de Reactores Nucleares, um curso de segunda opção uma vez que Abu queria estudar Engenharia Aeroespacial. Sempre fora um grande sonhador. Desde garoto que seguia a epopeia soviética de exploração do cosmos. Quando juntava alguns kopeks comprava a versão local do jornal Pravda devorando avidamente as notícias que descreviam com detalhe o lançamento dos primeiros protótipos de foguetes, assim como, outras conquistas tecnológicas que o Povo Bolchevique alcançava na corrida contra os EUA. Lia amiúde todas as intervenções de Sergei Korolev, o pai do programa espacial soviético.

A decisão do Politburo de instalar o cosmódromo em Baikonur situado na estepe cazaque, deixou Abu extasiado. Afinal seria a partir da sua República que a que a Pátria Socialista iria conduzir a Bandeira Vermelha aos confins do Universo. Tinha uma premonição. Um dia a sua oportunidade de servir a sua amada pátria ia chegar. E de facto chegou. A missão que lhe tinha sido confiada era um grande motivo de orgulho para Abu e para a pequena cidade de Leninbad.

No dia em que foi solicitado, Abu estava na ala central do Departamento de Física e Tecnologia Nuclear, junto do reactor piloto nº 4. Tinha terminado a sua licenciatura e foi convidado para iniciar o seu programa de estudos avançados na Academia de Ciências do Cazaquistão com objectivo de obter o grau de Doutor em Ciências. Nesse dia um oficial da Marinha de Guerra Soviética entrou no laboratório e entregou-lhe um envelope lacrado, cujo remetente era o Ministério da Economia e dos Planos Quinquenais. Abu abriu o envelope e leu a mensagem escrita em cirílico. Estava assinada pelo próprio Estaline. A comunicação enviada pelo mais alto dignatário do Soviete Supremo referia que no prazo limite de uma semana Abu deveria estar presente no Ministério em Moscovo. O envelope também continha um bilhete de ida e volta para Moscovo na companhia aérea estatal Aeroflot.

Ficou um pouco receoso, com um sentimento misto de apreensão e entusiasmo. Afinal Estaline tenha uma personalidade muito instável, tanto podia condecorar um camarada com a Ordem de Herói da União Soviética, como podia enviá-lo para um gulag na tundra siberiana.


Da pequena janela do avião, Abu conseguia avistar os extensos campos de algodão e as altas torres petrolíferas dos prósperos poços de crude. O mar de Aral (cada vez mais pequeno), e o mar Cáspio eram facilmente reconhecíveis a partir do ar. Baikonur distinguia-se muito bem. Via-se na perfeição o perímetro do cosmódromo que aumentava de dia para dia. Também se notava a intensa actividade do bairro residencial que crescia nas imediações alojando os 3200 operários, cientistas, engenheiros e respectivas famílias. Não era a primeira vez que Abu viajava de avião. Por diversas vezes tinha ido em representação do Partido à capital mongol, Ulan Bator. Essas viagens tinham sido efectuadas no âmbito da instalação de um governo de cariz marxista-leninista na Mongólia (havia o risco de a China avançar com um governo maoista). As indicações de Abu eram muito precisas. Orientar o povo mongol na transição do nomadismo para sedentarismo. Essa tarefa implicava fixar as populações em aglomerados rurais (kolkozes, sovkozes) e aglomerados urbanos cujos habitantes nómadas seriam convertidos a operários fabris. O Cazaquistão na era pré-soviética, havia sido um povo nómada da estepe tal como os mongóis. A experiência cazaque de edificação do socialismo deveria agora ser transplantada para a vizinha Mongólia. Abu tinha sido dignitário dessa tarefa.

Os Urais começavam a aparecer no horizonte. Já pouco faltava para chegar a Moscovo. Abu nunca tinha ido à grande cidade. Quando o Tupolev começou a sobrevoar a capital, Abu começou a avistar vários locais que lhe eram familiares pelas imagens de propaganda difundidas por todas as repúblicas da URSS. Obviamente que reconheceu com facilidade a Praça Vermelha. No entanto ao avistá-la desatou a rir-se às gargalhadas sem se conseguir controlar, até que a hospedeira de bordo, Svetlana, se dirigiu a Abu perguntando:

-O camarada sente-se bem?

Abu veio a si, recuperou o fôlego, conteve-se e respondeu:

- Sim! Simplesmente lembrei-me de uma situação ridícula que se passou comigo a semana passada.

Svetlana retirou-se, não muito convencida. Na verdade, o que catalisou o riso em Abu foi o Kremlin. Nunca tinha visto o Kremlin. Somente em livros. Visto do avião pareceu-lhe simplesmente uma construção de um qualquer conto para crianças. Como era possível que a URSS, o maior país do Mundo, fosse governado a partir de um edifício que mais uma parece um palácio de princesa, pensou Abu. Assim que desceu do avião não lhe passou despercebida a frase em letras garrafais que acompanhava toda a fachada do edifício do aeroporto:”PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNI-VOS”. Acabou de descer o último degrau da escada e aproximou-se um Volga a grande velocidade de onde saíram dois homens de porte considerável que rapidamente o interpelaram:

- Camarada Orabi?

- Sim, sou eu. - Responde Abu.

-Acompanhe-nos por favor. O Camarada Estaline está no Ministério da Economia e dos Planos Quinquenais à sua espera.

Entrou para o carro e viajou com destino ao ministério percorrendo as ruas de Moscovo. Da janela do carro voltou a avistar novamente as cúpulas das torres do Kremlin, mas desta vez conteve-se para não se desfazer em risos. Mesmo assim esboçou um sorriso de soslaio que mereceu o olhar desconfiado dos dois homens.

Nesse momento Abu pressentiu que alguma coisa iria correr mal.

4 Comments:

Anonymous politburo afectado usou da palavra

Por ser o primeiro a comentar, sinto o mesmo frémito que a primeira testemunha de um despiste na estrada: Você está bem? Estão todos bem? Mantenhamos a calma. Já ligaram ao 112? Têm seguro contra todos? As estradas são cheias de ratoeiras. Tem a certeza de que não está ferida? etc.

Mas devo dizer-te que não gostei da falsa reverência com que falas do Partido e da Mãe Rússia. Acautela-te, vem aí uma vaga de frio. E faz ver.

21 março, 2007 20:12  
Blogger O Micróbio II usou da palavra

4 anitos... lá pelo Micróbio! :-)

22 março, 2007 12:19  
Blogger mao morto usou da palavra

O Vlad tem a cartilha toda! Aguardo serenamente as outras partes desta epopeia bolchevique.

(Tive de pagar no lápijazul para aumentar o tamanho da fonte, não conseguia ler bem, há coisas que deterioram a visão e passar muito tempo em frente a um monitor é uma delas)

22 março, 2007 14:53  
Anonymous Anónimo usou da palavra

sorry to bother you but can you tell me please why you have choosen the name Abu-Orabi??

18 fevereiro, 2008 23:37  

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