27 de março de 2007

A balada do café triste

Escrito em 1951, poucos anos antes da sua morte, este livro de Carson McCullers foi considerado por Tennessee Williams uma das obras primas em prosa da língua inglesa. E Graham Greene, com a usual ironia, comparava-a a Faulkner: “Prefiro a Miss McCullers a Faulkner porque escreve com mais clareza; prefiro-a a D.H. Lawrence porque não tem mensagem.” (texto retirado daqui).



Carson Mc Cullers (1917-1967) alcançou a notoriedade nos círculo literário norte-americano com "The Heart is a Lonely Hunter", a sua primeira obra, publicada em 1940, que escreveu entre os 18 e os 22 anos. "Tornei-me uma figura literária da noite para o dia, numa altura em que era demasiado nova para compreender o que me estava a acontecer e a responsabilidade que me era imposta. Foi como um terror sagrado que, justamente com a minha doença quase me destruiu". - citação retirada do artigo de Helena Vasconcelos na Storm-Magazine.

"The Heart is a Lonely Hunter" foi adaptada ao grande ecrã em 1968, no filme homónimo de Robert E. Miller e protagonizado por Alan Arkin (recentemente galardoado com o Óscar de Melhor Actor Secundário por "Little Miss Sunshine").

Ainda no mesmo ano, é publicada "Reflexos num Olho Dourado", considerada a sua obra prima e adaptada ao cinema em 1967, num filme de John Huston, com Marlon Brando e Elizabeth Taylor. Um ano depois, nova publicação: "A balada do café triste".



Em "A Balada...", Carson narra-nos, em pouco mais de setenta páginas, a história de uma tumultuosa e improvável relação envolvendo uma mulher e os dois homens que mais lhe marcaram a vida. A pequena aldeia onde a acção decorre torna-se, por assim dizer, a quarta personagem da narrativa.
Sensivelmente a meio do livro, Carson McCullers suspende a evolução dos personagens e oferece-nos estes dizeres:


"Em primeiro lugar, [o amor] é uma experiência a dois, mas isso não quer dizer que seja a mesma coisa para cada um. Há o que ama e o que é amado, e estes dois eram diferentes como o dia da noite. Muitas vezes o amado é apenas um estímulo para todo o amor acumulado, durante muito tempo e até àquele momento, pelo amante. De algum modo, cada amante sabe que é assim. Sente no seu íntimo que o seu amor é solitário. Depois, conhece uma nova e estranha solidão, que o faz sofrer ainda mais. De maneira que só lhe resta fazer uma coisa. Deve abrigar dentro de si, o melhor que puder, esse amor; deve criar um mundo só seu, intenso e único.

(e, alguns parágrafos adiante)

Portanto, o valor e qualidade do amor é decidido apenas pelo próprio amante. É por esta razão que muitos preferem amar a ser amados. Quase toda a gente quer ser o amante. E a verdade nua e crua é esta: no íntimo, o facto de ser amado é intolerável para muita gente. O amado teme e odeia o amante, e pela melhor das razões. O amante quer sempre mais intensamente ao seu amado, ainda que isso lhe cause somente dor."

Carson deixa no ar a impressão de que o romance não foi senão um pretexto para escrever estes parágrafos. "A balada do café triste foi também adaptada para cinema, em 1991, pelo dramaturgo Edward Albee e Michael Hirst. O filme foi realizado por Simon Callow e protagonizado por Vanessa Redgrave e Keith Carradine.

8 Comments:

Blogger odeusdamaquina usou da palavra

Grande escolha. E não digo mais porque perante tais escritores fico quedo e mudo (mas ainda não surdo).
Por isso ainda ouço essa balada. Quantos cafés não albergam a poesia triste do homem inconformado?
E quantos cafés não albergam o triste rumorejo de banalidades do dia-a-dia?
Por isso, é preciso saber escolher. Eu nem aprecio café!
Café por café, prefiro bebê-lo em casa! Mas se a companhia e o lugar forem de tertúlia, de aprendizagem, de interesse, então vale a pena!
Que baladas não poderemos nós albergar no coração das trevas?

27 março, 2007 19:37  
Blogger mao morto usou da palavra

Este é dos bons, ó deus. E ela das boas. E destaquei estes parágrafos porque são "objectos estranhos" na obra. O "Reflexos num Olho Dourado" é ainda melhor". O livro, e o filme também.

28 março, 2007 21:59  
Blogger odeusdamaquina usou da palavra

Isso é que é conhecimento Homem com O grande! ÓÓÓÓÓÓ.....
O vento lá fora!

29 março, 2007 00:48  
Blogger mao morto usou da palavra

Olhe que não, olhe que não, ó deusfeitohomem. Apenas acontece ter lido estes dois livros e visto o filme e ter "achado tudo muito bonito".

Adorei.

Passei-me.

29 março, 2007 17:11  
Blogger odeusdamaquina usou da palavra

Então quer dizer que estás mesmo morto! Passei-me! Boa Mão que tu tens!

02 abril, 2007 16:22  
Anonymous anjossao5 usou da palavra

Dizem que os humanos são seres descontínuos.
Dizem que para eles há apenas dois momentos de continuidade (com o universo): a morte e o orgasmo.
Dizem que o amor entre dois humanos só acontece quando ambos criam uma nova identidade/entidade, resultante da fusão das duas individualidades, em que cada um se posiciona como “idêntico inverso” do outro, como se se tratasse de uma máquina a vapor, que, para gerar movimento, necessita de uma fonte quente e de outra fria. Simbiose para acabar de vez com o pecado original da solidão, em que tudo se pode ganhar e tudo se pode perder.
Dizem que Bíon de Borístemis, homem bem apessoado e rico, disse:
“O pior mal é não sofrer nenhum mal na vida”.
.

02 maio, 2009 21:12  
Blogger odeusdamaquina usou da palavra

Excelente comentário, que corroboro. Parece que fala da teoria das relações, de Wilfred Bion, não sei se será. Mas dá que
pensar sobre. E mais uma vez, voltar ao passado, às memórias, não só deste blogue, mas especialmente deste livro.
Que escreva mais vezes para aqui!
Gostamos de aprender!

03 maio, 2009 00:00  
Blogger Diego Andrade usou da palavra

Bom dia Maria Pernilla!!! Acabei de ler esse livro no original, que obra fantstica!!! Parabéns por ter um olhar sensível as coisas belas como este livro.!!! Este é meu blog, gostaria que seus olhos visitassem algumas de minhas "intimidades".Obrigado.

www.euaspalavraseeu.blogspot.com

12 junho, 2011 14:42  

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