7 de fevereiro de 2007

Lago Peitos

Anagrama de Tiago Lopes, artista plástico e docente de Educação Visual e Tecnológica. Nasceu em Lisboa. Vive em Viseu. Montou "Sortido Fino" em Tondela. Na galeria do NC ACERT, até 19 de Fevereiro.


www.acert.pt

Pertence ao Grupo Artístico Flambé. Prémio Animarte 2002 - produção artística - pintura.
(AnimArte. ExperimentArte. AntecipArte. Does it ring a bell?)

restaurante - ao fundo, à direita - escadas - esquerda -direita - esquerda ou
portão metálico - esquerda - bar - ao fundo em frente - esquerda

o mesmo: até à entrada. Dois visitantes: eu e outro homem, que fala muito alto. Abeira-se de mim e vocifera: Ora vamos cá ver a obra do artista. Isto não deve ser grande coisa, não se paga e tal... vamos cá ver!
Replico: Prepare-se para se confrontar com as incongruências da personalidade humana, aquelas que o obrigavam quando criança a esconder-se debaixo da roupa da cama quando surgiam mascaradas de Bem e Mal, em suma de convenções." A minha resposta causou-me quase tanta estranheza como a ele. Oh, tenho o atacador desapertado! E tento retirar o pé da argola com algum brio.

Delimitado a amarelo, um espaço vazio. Ao passar por ali, o outro visitante, pelos vistos um dos que não perde uma oportunidade para maldizer o país, escarnecer o seu semelhante, a humanidade caminha para o seu próprio fim, o meu séquito já não passa sem as minhas imprecações , comenta para a escultura ao lado: Isto, minha cara, é o artista - como se chama ele? Ah, pois, Tiago Lopes, artista dizia eu, a dizer-nos: " este lugar está reservado para o Senhor Engenheiro, ou para o Pároco ou para o Senhor Administrador, Tiago insurge-se contra a prepotência dos poderosos e coloca-se do lado daqueles que, como nós, se sujeitam ao martírio diário de andar minutos à procura de um lugar para estacionar".

Detecto malícia no seu tom de voz e na sua expressão facial. A escultura parece anuir. Ou então não. Não se mexe. Deixo que o maldizente se afaste e sussurro-lhe: "Nada disso. O artista diz-nos que aquele lugar reservado se destina à sua criação última. O artista procura sem cessar superar-se, atingir a perfeição. Ainda que sabendo que tal não existe, não desiste de tentar, pois é na procura que se alcança o frémito que o acto de criar provoca. Diz-nos que ali estará a sublimação da sua linguagem e da sua estética. Aquele é o lugar reservado à sua obra-prima, e estará sempre vazio". Para manter a fachada de imparcialidade, a escultura não reagiu às minhas palavras.





Alguns corpos pintados apresentam-se desprovidos de rosto. A face é o elemento fundamental num ser humano. É nas feições que reparamos, é a face que afagamos... Os catecismos das nossas vidas dizem-nos que é feio desejarmos o corpo. Impingem-nos moderação no contacto com o Outro. Mandam-nos contemplar o rosto, procurando um sorriso. A ausência de rosto permite-nos apreciar o corpo da figura, sem os olhos a perscrutar-nos o nosso próprio olhar. Olhamos sem complexos. E os corpos ganham expressividade, pelo menos para mim - sei lá o que o outro estará a pensar. Até que o ouço:

Emociono-me ao contemplar figuras humanas sem rosto. Assombro-me perante tamanha confissão. E prossegue. Fala agora cada vez mais depressa, sem contudo entaramelar a língua:
Era novo; chegado da escola, o meu pai chamou-me ao seu velho escritório, ouvia guinchos aflitivos, de repente deparei-me com uma ratoeira, uma ratazana presa. Fora apanhada e a mola impedia qualquer tentativa de fuga. O meu pai silenciou-a com a tenaz que fora buscar à lareira. Assisti a tudo, meio fascinado meio aterrorizado. A ratazana que morreu à minha frente perseguiu-me durante anos em sonhos. Ganhei um asco desmedido aos ratos e ratazanas. Não me chego sequer perto de uma, não consigo manter contacto visual com elas. E de cada vez que observo uma figura sem cabeça, logo encontro uma enorme ratazana no lugar da cabeça.
Baixou a cabeça e afastei-me dele.


Detivemo-nos em seguida junto à instalação constituída pela fotografia de um bolo-de-arroz e pelas suas sobras espalhadas no chão. Ouço o seu comentário: Eis aqui a alegoria da sociedade em que vivemos. Consumimos cada vez mais avidamente os recursos do planeta, sem nos preocuparmos com o lixo que fazemos. Aqui está o grito silencioso de alerta para isso.
Politicamente correcto,
pensei. Só lhe falta dar vivas ao Protocolo de Quioto e ao Fórum Social Mundial. E não desviei os olhos da obra quando comecei a falar:
Muitas vezes a apreciação de uma obra de arte não decorre do nosso conhecimento, mas da sensação que ela nos provoca. Inconscientemente, revemo-nos nas peças que apreciamos. Nesta instalação, o Tiago - e aqui arroguei-me a tratá-lo pelo nome próprio - obriga-nos a olhar também para baixo, para a face oculta da nossa personalidade que a aparência não revela. Essa dualidade da condição humana está muito bem plasmada nesta criação.
Após um breve silêncio, perguntou-me:
Você acredita mesmo no que acabou de dizer?
Claro que não,
pensei. Mas a minha resposta foi:
Sim. Quantas vezes nos estatelámos no chão sem que alguém pareça reparar? (frase feita, frase feita, frase feita).

Tínhamos enfim chegado ao final da exposição. (Uff!) Chegado à porta, parei e estendi o braço na direcção do meu companheiro de visita, com o propósito de lhe ceder a passagem. Espantado, verifiquei que não havia mais gente na galeria. Tinha passado todo aquele tempo a falar sozinho.

*agradeço a Ztv a resposta dada em tempo negativo: recebi a mensagem antes de a enviar.

3 Comments:

Blogger RPM usou da palavra

olá camarada!

muito prolixa essa imaginação. Diz ao Tiago que as obras que estáo na foto são muito engraçadas e bastante expressivas.....expressionismo moderno pós-XX???

Língua Turva (ou MOrta)! olha o bolo de arroz é mesmo para estar em branco para nós procurármos???

abraço!!

Ufa!! cheguei ao fim e reparei que estava a escrever para a tela...

RPM

07 fevereiro, 2007 10:52  
Blogger Afectos usou da palavra

Gostei da visita e do seu guia. Um privilégio.

08 fevereiro, 2007 19:47  
Blogger mao morto usou da palavra

rpm:
Foi para o que me deu.

afectos:
Obrigado. Mas ao vivo a história é outra.

12 fevereiro, 2007 22:28  

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