31 de março de 2007

Fechado para Obras de Reflexão

Ilegal mordaça
Primavera destroçada
pelo dilúvio da voz
abafada

Consciência do olhar
da tenebrosidade
da tua pele rasgada
pelo vento frio

Tundras da vida
no gelo dos afectos
as costas voltadas
ao colectivo

Falar em surdina
para não incomodar
o próximo humanóide
que finge sentir

Navegamos nas imagens
nas palavras ocas de sentido
e o que se vê é puro hedonismo
nas nossas vidas solitárias

Transferimos o futuro adiado
para o nosso presente acelerado
sem trocas de olhares, de sabores
e saberes na calma da tarde triste

E ficamos, quais estátuas de Lot
na imanência dos sentidos
permanecemos na perene
casa dos dias adiados

com controlo à distância
e redes digitais que fingem
aproximar-nos, tolhendo
a memória e as utopias

Há que re-agir!, senhores
doutos do mundo
a frieza deste cérebro
está a aquecer o nosso planeta

E sem tempo, só olhamos para trás
e cristalizamos a vida
nas minudências dos ritmos modernos
enquanto o carro voa a 180 à hora

Percurso quase Futurista
de um condutor azarado
nas multas que a estrada dá

Urge reconhecer
o falivel artifício
em que nos envolvemos

Estamos na redoma
Já não sabemos
nem temos forças para sair dela?

30 de março de 2007

(clique na imagem para ver o vídeo - psb flamboyant)

29 de março de 2007

Quinta (feira) da Bacalhôa - Tinto!


Porque estou farto de ver esta namoradinha, esta imagem, esta... vidente.

Só mesmo um Vinho para aconselhar a degustar, é das minhas terras do Sado.
Toma lá um Quinta da Bacalhôa 1995 - Tinto, esquece tudo (o que te disse) e por favor,
vê lá se acabas com a tua be(atitude) refundida aí no teu interior. Bebe e deixa sair o demónio!
Por 16 euros fazes o exorcismo!

Vade Retro Lúci(a)Fer. E lá que fere, fere!

O que a Páscoa não faz à cabeça de um santo homem!

28 de março de 2007

A namoradinha de Portugal fez 100 anos


Foi no passado dia 22. A RTP celebra a efeméride hoje. Que este seja o primeiro de muitos centenários.

27 de março de 2007

Teatro Regional da Serra do Montemuro

Já que estamos no Dia Mundial do Teatro, vale a pena continuarmos este périplo nacional pelas Companhias de Teatro fora dos grandes centros urbanos. E esta Companhia, o TRSM é um excelente exemplo de teatro feito no mundo rural, do mundo rural e para o mundo inteiro, como eles afirmam desde o início. Uma Companhia sedeada em Campo Benfeito, uma aldeia perdida na Serra do Montemuro com 60 habitantes, no Concelho de Castro Daire, Distrito de Viseu.

Desde 1992 que existem, com a presença de uma pessoa muito importante: Graeme Pulleyn, um Inglês que veio estagiar para Portugal, para a Serra, fazendo Animação Cultural que depressa se apaixonou por aquelas pessoas e de cá não saiu mais. Depois de 3 anos de amadorismo e muita aprendizagem, nasce em 1995 o TRSM com um espectáculo ainda hoje importante para a afirmação de um novo teatro em Portugal, de origem e temáticas rurais.
Com "Lobo-Wolf", de Abel Neves e Therese Collins um espectáculo bilingue (Graeme Pulleyn e Eduardo Correia), o TRSM afirmou-se no contexto nacional, com uma dose de surpresa, de inovação, de regresso às raízes. Fizeram enorme sucesso em Lisboa (Lembro-me as sessões esgotadas na Comuna, Culturgest) e em inúmeros festivais de teatro pelo país, além da gravação do espectáculo para a RTP.
Nesse ano de 1995 o Ministério da Cultura atribui-lhes pela 1ª vez um apoio monetário, que até hoje têm vindo a receber e a consolidar.
Depois disso, um trabalho de itinerância enorme, protocolos com muitas câmaras deste país, muita vontade de trabalhar e apresentar espectáculos.
Destaco o "Festival Altitudes"que desde 1998 se realiza na Aldeia de Campo Benfeito, com a presença de grandes companhias nacionais, organizado pelo TRSM com muita vontade e que atrai muitos emigrantes, estrangeiros e gente do teatro do país inteiro, em pleno mês de Agosto.
São muitos os espectáculos que eu já vi desta Companhia, que faz parte da minha vida, pois já fiz parte da equipa, ao trabalhar em 2003 na Produção Artística e na Organização do Festival Altitudes desse ano.
Destaco alguns espectáculos, que podem e devem ver no site da companhia em http://www.teatrodomontemuro.com/ e no seu blogue http://www.lobosnofojo.blogspot.com/

- Lobo/Wolf
- El Gringo
- Pizza
- A Caminho do Oeste
- Bodas de Cândida
- Alminhas
- O Canto da Cepa (Com alunos da Escola Secundária de Lamego, sobre as vindimas do Douro)
- Fénix e Kota-Kota (Com a presença de muitos actores amadores da aldeia)
- A Grande Aventura (espectáculo de rua)
- Eira dos Cães (uma singular adaptação à serra do "Macbeth" de Shakespeare)
- Carrada de Bestas (espectáculo de rua)
- Sucata Sisters (onde o confronto do caótico mundo urbano entronca com a vivência rural)
- Qaribó (espectáculo infantil de grande magia)

Se posso destacar algumas coisas, revelo apenas a atitude profissionalíssima de todos, um trabalho de grande inovação ao nível dos Cenários e Figurinos, e uma dramaturgia que aponta muito ao mundo do sonho, da magia e sempre o confronto entre a realidade rural e a descoberta da vivência urbana com todas as suas inquitetações. De registar sempre o trabalho com dramaturgos influentes, como Abel Neves e muitos nomes estrangeiros, que contribuem para o lado singelo da Companhia. Bom Teatro, vejam quando puderem, o TRSM.
As Carrinhas deles andam frequentemente pelas estradas do nosso país!

Bom Dia Mundial do Teatro

Irmãos e irmãs da luta

no dia em que se comemora o dia cósmico do teatro
nada melhor que algumas sugestões para o dia de hoje:

- ir ao teatro
- insultar alguém que trabalhe em teatro
- puxar fogo a um teatro
- ver televisão
- puxar fogo a um teatro
- ter uma conversa franca e honesta sobre novas oportunidades de emprego
com alguém que trabalhe em teatro
- ver televisão
- dizer que o estado não apoia os grupos de teatro
- dizer que os grupos de teatro não apoiam o estado

- ir ao tetro

- e depois puxar fogo aos panos pretos
abraços e beijos

Pedro Manuel
(Com o Beneplácito e a aprovação do deus teatral descendo por uma máquina,
o "deus ex-machina")


A balada do café triste

Escrito em 1951, poucos anos antes da sua morte, este livro de Carson McCullers foi considerado por Tennessee Williams uma das obras primas em prosa da língua inglesa. E Graham Greene, com a usual ironia, comparava-a a Faulkner: “Prefiro a Miss McCullers a Faulkner porque escreve com mais clareza; prefiro-a a D.H. Lawrence porque não tem mensagem.” (texto retirado daqui).



Carson Mc Cullers (1917-1967) alcançou a notoriedade nos círculo literário norte-americano com "The Heart is a Lonely Hunter", a sua primeira obra, publicada em 1940, que escreveu entre os 18 e os 22 anos. "Tornei-me uma figura literária da noite para o dia, numa altura em que era demasiado nova para compreender o que me estava a acontecer e a responsabilidade que me era imposta. Foi como um terror sagrado que, justamente com a minha doença quase me destruiu". - citação retirada do artigo de Helena Vasconcelos na Storm-Magazine.

"The Heart is a Lonely Hunter" foi adaptada ao grande ecrã em 1968, no filme homónimo de Robert E. Miller e protagonizado por Alan Arkin (recentemente galardoado com o Óscar de Melhor Actor Secundário por "Little Miss Sunshine").

Ainda no mesmo ano, é publicada "Reflexos num Olho Dourado", considerada a sua obra prima e adaptada ao cinema em 1967, num filme de John Huston, com Marlon Brando e Elizabeth Taylor. Um ano depois, nova publicação: "A balada do café triste".



Em "A Balada...", Carson narra-nos, em pouco mais de setenta páginas, a história de uma tumultuosa e improvável relação envolvendo uma mulher e os dois homens que mais lhe marcaram a vida. A pequena aldeia onde a acção decorre torna-se, por assim dizer, a quarta personagem da narrativa.
Sensivelmente a meio do livro, Carson McCullers suspende a evolução dos personagens e oferece-nos estes dizeres:


"Em primeiro lugar, [o amor] é uma experiência a dois, mas isso não quer dizer que seja a mesma coisa para cada um. Há o que ama e o que é amado, e estes dois eram diferentes como o dia da noite. Muitas vezes o amado é apenas um estímulo para todo o amor acumulado, durante muito tempo e até àquele momento, pelo amante. De algum modo, cada amante sabe que é assim. Sente no seu íntimo que o seu amor é solitário. Depois, conhece uma nova e estranha solidão, que o faz sofrer ainda mais. De maneira que só lhe resta fazer uma coisa. Deve abrigar dentro de si, o melhor que puder, esse amor; deve criar um mundo só seu, intenso e único.

(e, alguns parágrafos adiante)

Portanto, o valor e qualidade do amor é decidido apenas pelo próprio amante. É por esta razão que muitos preferem amar a ser amados. Quase toda a gente quer ser o amante. E a verdade nua e crua é esta: no íntimo, o facto de ser amado é intolerável para muita gente. O amado teme e odeia o amante, e pela melhor das razões. O amante quer sempre mais intensamente ao seu amado, ainda que isso lhe cause somente dor."

Carson deixa no ar a impressão de que o romance não foi senão um pretexto para escrever estes parágrafos. "A balada do café triste foi também adaptada para cinema, em 1991, pelo dramaturgo Edward Albee e Michael Hirst. O filme foi realizado por Simon Callow e protagonizado por Vanessa Redgrave e Keith Carradine.

26 de março de 2007

ObGina - Está quase a sair! (Quente e Boa - Como a Castanha)


ObGina é um feito assinalável na Edição de 2007.

Cultura a rodos, Educação e Cidadania são os motes.

Desde já dou uma pincelada ao 1º número (já que também sou um participante activo da ObGina).

Conteúdos:
1. Poesia Totalitária - encontro poético-afectuoso em Vimieiro -Santa Comba Dão ( Evento-espectáculo-performance sobre a tumba de AO Salazar)
2. Gina Lolo Frígida - Ou como o espírito "Vintage" está a destacar-se nas novas transdiciplinaridades artísticas
3. Música pré-conceituosa - antes do conceito, a música. Sem som, silêncio insurrecto! Horizontalidades de um devir insofismável. A palavra aos silêncios, de um novo mundo que urge descobrir
4. Teatro geriátrico-deambulatório, ou como um espectáculo ajuda a combater a solidão, o escárnio, a sarna, a mononucleose infecciosa e as hemorróidas. Teatro em andamento, dar vida às pernas, dar pernas à vida dos idosos! Teatro comunitário-dependente, com almoço grátis na casa da Ti Joaquina Amparo por terras do Demo
5. Artes Visuais estérico-esoterico-histrionico-eróticas. Um conceito abrangente, de enorme unicidade e universalidade, que transmite a pulsão do homem, os sonhos do mundo e uma alma renovada
A não perder, após a páscoa, a 1ª edição desta revista antropo-filosofico-político-social com um carácter denodado, sabor garrido, cultura e conhecimento.

ObGina: artes performativas ao alcance da mão

Está desde há algumas semanas disponível para ser descarregada, neste endereço, a segunda edição da ObsCena - revista das artes performativas. A não perder, portanto, esta edição que aborda como poucas o espectro lisboeta, digo nacional das artes performativas.

Um outro cativante projecto acaba de ver a luz do dia - e digo-o empregando o sentido literal da expressão. Aqui o antevemos:




Trata-se de ObGina, publicação que tem como target um público atentíssimo, às artes performativas de diversa índole, e que avidamente anseia pelas novidades que nessa esfera surgem continuamente, numa voracidade sem paralelo no tempo presente - como, aliás, estas fotografias evidenciam.





ObGina tem como lema: "artes performativas ao alcance da mão". Aposta na interacção com o leitor, na criação de uma relação de organicidade e plasticidade entre o objecto artístico exposto e o público ávido por consumi-lo.

Abracemos pois, com enlevo esta nova aposta editorial que pretende, a médio prazo, plasmar - no sentido lato do termo - público e manifestações artísticas.

The Special One

Salazar a votos...


Finalmente Salazar ganhou uma eleição sem que tenha havido intervenção da "Divina Providência". Durante a noite de ontem, a Extrema Direita Portuguesa foi aclamar o Estadista da Nação, que se encontrava escondido desde 1968 numa cave em Santa Comba Dão. Durante todo este tempo alimentou-se de hóstias e só bebia água benta. A tomada de posse vai ter lugar no Forte de Sto António do Estoril, no próximo dia 26 de Maio. Esperam-se representantes de todo o Império.

P.S. :Durante a cerimónia vão ser proibidas cadeiras.

23 de março de 2007

O Herbário de Cesário

Prestamista do meu desejo
a líquida face da corola
está ausente
no teu fiel jardineiro

Abundantes magnólias
da tua erosão inquieta
ensimesmavas a quintessência
do teu olhar absorto
em nímbicas transformações

Corroídos de medo
os palácios de Inverno
desaguaram na memória
dos epitáfios cinzentos

Bafientas doses de calor
na madressilva murcha
de tanto contar
os amores do mundo

Tectónicas rugosidades
na esfera armilar
do teu desejo secreto

Não vou contar
os segredos ínfimos
da tua boca saídos

Uma nova era de espanto
nasceu da deriva dos continentes
A Pangea inicial partiu-se
em bocados rígidos
do meu biscoito fabricado
para a viagem à Índia

Os deuses Eolos ajudaram
na missão de te salvar
da escorbútica pele
e dos dentes ensanguentados

A toda a vela, rumores de cais
ancorados na mais profunda
quietude do tempo
abraçaram os mareantes
do devir infinito

Aportados na bruma do mato
descansamos de tão frágeis
utopias e corpos tão diáfanos

De volta à vida, o corrupio
de silvos lancinantes
acordam-me da guerra
dos nervos da savana

Já deixei o teu solo ancorado
na profusão do beijo insosso
e parti para o meu estilete frio
na madrugada do lírio do campo

Na vereda do olhar inquieto
açaimo agora a pulsão
dos dias percorridos
e atravesso um mar de espelhos
na poética ondulante dos girassóis

22 de março de 2007

A Purga de Estaline (Parte II)

Vassili e Techernenko deixaram Abu numa pequena sala e indicaram-lhe que esperasse até ser chamado. A sala tinha uma decoração muito minimalista. Apenas possuía um banco comprido de madeira estofado em veludo escarlate, um busto de Lénine e um grande quadro pendurado na parede. No quadro estava representado um episódio de uma batalha naval onde o cruzador Oktiabrskaia Revoliutsia (Revolução de Outubro) bombardeava uma fragata de guerra da poderosa armada do 3º Reich. Abu olhava o quadro com muita minúcia. Era sem dúvida uma obra-prima do Realismo Soviético. Quase se sentia o sabor da água salgada mesclado com o cheiro a hidrocarbonetos e a pólvora queimada. Ouvia-se o som das canhoeiras e dos gritos dos marinheiros que agonizavam encharcados em sangue. De súbito aparece alguém. Abu ficou especado à espera que lhe falassem. Era o comissário político de Estaline.

- Camarada Abu Orabi, o chefe do Soviete Supremo, camarada Josef Estaline não pode atendê-lo de momento, pois está a fazer uma purga.

Abu ficou atarantado. A percorrer a sala de um lado para o outro, começou a sentir um nó a aperta-lhe o estômago e uma súbita vontade de vomitar. Não era para menos, a última depuração realizada por Estaline teve como resultado milhares de mortos e prisioneiros deportados para a Sibéria. Abu ainda pensou em fugir, mas não valia a pena, Estaline iria persegui-lo até ao fim do mundo, declarava-o inimigo do Povo, e a sentença era conhecida: trabalhos forçados até à morte. O tempo que esperou até ser chamado novamente parecia uma eternidade. Por fim, a altura chegou. Entrou no gabinete onde se encontrava Estaline que aparentava um certa serenidade. Abu pensou para si próprio “Sacana, deve ter acabado sentenciar milhares de pessoas do seu próprio povo”. O seu pensamento foi interrompido pela voz de Estaline:

- Camarada Abu Orabi quero em primeiro dar-lhe as boas-vindas. Queira desculpar-me o facto de ter esperado algum tempo mas, estive aqui a fazer uma purga. Sabe, uma purga…Aliviar os intestinos.

Estaline manteve-se alguns segundos em silêncio. De súbito solta uma gargalhada, que desencadeou uma onda de riso a bandeiras despregadas em todos os presentes no gabinete. Abu sem saber muito bem o que fazer também esboçou um sorriso com um certo nervosismo. Estava mais sereno. Afinal a purga de Estaline era simplesmente uma soltura intestinal.
A ideia repugnou-o, estava agora a imaginar um cenário, onde Estaline estava sentado numa sanita com uma cara de esforço a descarregar tudo o que continha nas entranhas. Nunca lhe tinha passado pela cabeça tal visão dantesca. Mas é claro que Estaline era humano (era mesmo?) e tinha obviamente as suas necessidades fisiológicas.

Após este breve momento de riso, Estaline explicou-lhe a tarefa que este iria levar a cabo. Do 6º plano quinquenal fazia parte o desenvolvimento económico das repúblicas socialistas soviéticas da ásia- central, particularmente o Cazaquistão, pela importância vital que lhe era atribuída devido ao próspero cosmódromo em Baikonur, as plantações de algodão e os poços de petróleo. Foi então que Abu ficou a conhecer as suas funções na construção da central nuclear que iria ser erigida para fornecer energia eléctrica alimentando assim o comódromo que cada vez mais necessitava de energia. A central iria também fornecer corrente eléctrica a todo o território sul do Cazaquistão e às repúblicas vizinhas do Quirguizistão e Uzbequistão. Estaline explicara também que a escolha tinha recaído sobre Abu devido à sua dedicação ao Partido e à causa Socialista. Notabilizou ainda o excelente trabalho realizado na Mongólia.

Foi condecorado com a Ordem da Confiança entre os Povos por ter aceite a nobre tarefa que lhe tinha sido proposta. A medalha tinha uma inscrição em cirílico, uma frase de Lénine que versava: “Só a Verdade é Revolucionária”. As medalhas da Ordem da Confiança eram emitidas pelo Ministério da Verdade. Este ministério era o garante da segurança da nação, pois controlava tudo e todos para assegurar que os traidores não embargavam a construção da Pátria Socialista. Feitas as despedidas, Abu foi entregue no aeroporto e voltou de regresso para Alma-Ata onde iria reunir-se com uma equipa de técnicos da sua inteira confiança para começar a delegar tarefas. Quando chegou a casa a primeira atitude que teve foi guardar religiosamente a medalha da Ordem da Confiança.

Já tinham passados dois anos desde que Abu se encontrara com Estaline. O dia de trabalho tinha chegado ao fim. Tinha sido um dia esgotante mas muito recompensador, pois a sua equipa tinha finalmente acabado de instalar o segundo reactor que brevemente iria começar em testes para começar a produzir energia. Até agora tudo estava a correr bem. O segundo reactor iria iniciar a sua actividade dois meses antes do prazo definido pelo partido. Naquela noite Abu foi para cama com o sentimento de dever cumprido, adormeceu e dormiu o profundamente.

Repentinamente é acordado por alguém a falar inglês de uma forma embrutecida:

-Lazy bastard. Fill my pick-up truck with 40 gallons of gas. And faster or I kick your fatty ass.

Ao abrir os olhos não reconhece imediatamente onde está. Esfrega os olhos, e cai na realidade. Afinal tudo não passava de um sonho. Não havia nenhum Abu Orabi, do Cazaquistão, havia um Jonh Garcia que trabalhava numa “gas station” em Hoboken no estado de New Jersey.
Ainda meio trôpego e com alguma moleza, John lá se resignou a abastecer o depósito de gasolina da “pick-up truck” do xerife que orgulhosamente trazia um autocolante no vidro traseiro que dizia: “ Support our troops in Vietnam”.
Finalmente chegara o seu colega para a passagem de turno. John ia finalmente para sua o seu lar.

Vivia num parque de roulotes com a sua esposa Peggy Sue. Não tinham filhos. Peggy preparava o jantar aguardando pela chegada de John.
John ao entrar na roulote, contou imediatamente o seu sonho à sua companheira.
Quando Peggy se apercebeu do teor do sonho, rapidamente lhe perguntou se John tinha passado pelo bar do Tweegy. John acenou com a cabeça dando uma resposta negativa. Peggy voltou a insistir:

- Encontraste alguém pelo caminho? Falaste com alguém sobre o sonho?
A resposta de Jonh voltou a ser negativa.

- Thank You all mighty God! – Suspirou a mulher, apontando as duas mãos ao céu.

-Ainda te lembras porque é que não podemos ter filhos?- Pergunta Peggy com alguma raiva.
-Lembro.- responde John, cabisbaixo e com ar de quem se assume culpado de algo.

John era um convicto entusiasta da causa bolchevique. Tal como os fiéis de Maomé têm de ir a Meca pelo menos uma vez antes de morrer, John queria visitar cada uma das capitais das repúblicas socialistas soviéticas antes de morrer. Como essa viagem era impossível de se concretizar, Jonh materializava os seus desejos através de sonhos, tal como o que tinha sonhado naquele dia. Mas outros sonhos houvera. Um deles, John foi contá-lo no bar que habitualmente frequentava. Não bastou muito para que o que John não estivesse na delegação local da CIA a levar uns murros no estômago e uns pontapés nas costelas. Nesse sonho, Jonh era um influente e decisivo general das brigadas de morte e extermínio do cambodjano, Plopoplot Pot.
John foi acusado de antipatriotismo. Além de lhe partirem as costelas e de ter ficado com a boca toda rebentada, ainda lhe fizeram uma castração química. Diziam que para bem da nação, John não deveria deixar descendência.

Peggy Sue, abraça John, beija-o levemente nos lábios e diz-lhe:

- Gosto muito de ti e não quero que nada te aconteça. Promete-me que não voltas a falar dessas tretas marxistas-leninistas.

Nessa mesma noite, John voltou a sonhar. Não se sabe o que sonhou. Pois a partir desse dia nunca mais revelou os seus sonhos a ninguém.

Ao mesmo tempo, algures na imensa Sibéria, Oleg Ladislav, prisioneiro político num gulag, trabalhava com um frio de – 30º C. Oleg desejava nunca ter nascido soviético.

FIM

21 de março de 2007

A Purga de Estaline (Parte I)

Era um dia normal de trabalho. Abu Orabi levantou-se da sua cama espartana e percorreu alguns passos em direcção ao armário onde guardava uma caixa forrada a veludo vermelho. Dentro da caixa estava uma medalha de metal reluzente oferecida por alguém muito poderoso. Como se ainda fosse possível brilhar mais, Abu esfrega a medalha energicamente. Por momentos pára. Fica alguns segundos siderado a pensar no valor simbólico que aquela medalha representa para si. Coloca-a na caixa. Veste a farda de trabalho e calça as suas botas visivelmente desgastadas.
Após este ritual matinal, Abu dirige-se para a cantina colectiva da empresa Stalinskaia onde, juntamente com 2485 trabalhadores toma o seu pequeno-almoço que em nada difere em qualidade ou quantidade da refeição dos restantes operários. Um todo-o-terreno Lada Niva de cor verde-azeitona conduz Abu ao seu destino, o estaleiro da obra que lhe tinha sido confiada. A importância e grandiosidade desta obra iria orgulhar a Pátria Socialista.

Abu era um característico cazaque e portanto possuía uma fisionomia própria dos habitantes da Ásia central. Pele de tez escura e olhos rasgados. Não era muito alto, gozando no entanto de uma grande robustez física, e um forte carácter de liderança tal como os seus antepassados nómadas. A sua liderança inata foi aliás, o factor decisivo que o Partido teve em conta aquando da sua escolha para dirigir uma equipa de técnicos e operários responsáveis pela instalação da primeira central nuclear para produção de energia eléctrica no Cazaquistão. Nasceu em Leninbad, uma pequena cidade situada perto das margens do lago Balkhash, a 600 km da capital Alma-Ata. Até aos 19 anos permaneceu em Leninbad com o seu velho pai, Khalipov, um veterano que tinha servido heroicamente numa divisão de baterias antiaéreas na batalha de Estalinegrado durante a Grande Guerra Pátria. No decorrer da guerra, Khalipov perdeu um braço. Apodreceu com gangrena quando um dia se deixou adormecer na neve. Sofria muito do estômago devido à úlcera que tinha desenvolvido pela privação de comida. Vive agora de uns míseros rublos que o Estado que envia, servindo-lhe apenas de consolo o facto ser considerado herói de guerra em Leninbad onde as crianças não se cansam de ouvir vezes sem conta as histórias do velho veterano. O nome Abu Orabi, não é tipicamente cazaque. Tinha sido escolhido pelo velho Khalipov como uma homenagem ao camarada de guerra jordano que pereceu junto de si depois de ter sido cravejado com uma rajada de um caça Messerschmitt. Abu Orabi, o jordano alistou-se nas Brigadas Internacionais, solidarizando-se com os camaradas do Exército Vermelho na defesa de Estalinegrado. Era um jovem intelectual, apoiante e impulsionador da filosofia marxista – leninista. Ensinava Arqueologia na Universidade de Pietra e tinha fundado o Partido dos Trabalhadores da Jordânia, partido clandestino no então protectorado inglês. Tinha sido um bom companheiro de guerra. Khalipov quis homenageá-lo dando o seu nome ao filho.


Na impossibilidade de mandar o filho estudar em Moscovo na Universidade Estatal Lomosonov, Abu ingressara na Escola Politécnica de Alma-Ata, onde iria frequentar Engenharia de Reactores Nucleares, um curso de segunda opção uma vez que Abu queria estudar Engenharia Aeroespacial. Sempre fora um grande sonhador. Desde garoto que seguia a epopeia soviética de exploração do cosmos. Quando juntava alguns kopeks comprava a versão local do jornal Pravda devorando avidamente as notícias que descreviam com detalhe o lançamento dos primeiros protótipos de foguetes, assim como, outras conquistas tecnológicas que o Povo Bolchevique alcançava na corrida contra os EUA. Lia amiúde todas as intervenções de Sergei Korolev, o pai do programa espacial soviético.

A decisão do Politburo de instalar o cosmódromo em Baikonur situado na estepe cazaque, deixou Abu extasiado. Afinal seria a partir da sua República que a que a Pátria Socialista iria conduzir a Bandeira Vermelha aos confins do Universo. Tinha uma premonição. Um dia a sua oportunidade de servir a sua amada pátria ia chegar. E de facto chegou. A missão que lhe tinha sido confiada era um grande motivo de orgulho para Abu e para a pequena cidade de Leninbad.

No dia em que foi solicitado, Abu estava na ala central do Departamento de Física e Tecnologia Nuclear, junto do reactor piloto nº 4. Tinha terminado a sua licenciatura e foi convidado para iniciar o seu programa de estudos avançados na Academia de Ciências do Cazaquistão com objectivo de obter o grau de Doutor em Ciências. Nesse dia um oficial da Marinha de Guerra Soviética entrou no laboratório e entregou-lhe um envelope lacrado, cujo remetente era o Ministério da Economia e dos Planos Quinquenais. Abu abriu o envelope e leu a mensagem escrita em cirílico. Estava assinada pelo próprio Estaline. A comunicação enviada pelo mais alto dignatário do Soviete Supremo referia que no prazo limite de uma semana Abu deveria estar presente no Ministério em Moscovo. O envelope também continha um bilhete de ida e volta para Moscovo na companhia aérea estatal Aeroflot.

Ficou um pouco receoso, com um sentimento misto de apreensão e entusiasmo. Afinal Estaline tenha uma personalidade muito instável, tanto podia condecorar um camarada com a Ordem de Herói da União Soviética, como podia enviá-lo para um gulag na tundra siberiana.


Da pequena janela do avião, Abu conseguia avistar os extensos campos de algodão e as altas torres petrolíferas dos prósperos poços de crude. O mar de Aral (cada vez mais pequeno), e o mar Cáspio eram facilmente reconhecíveis a partir do ar. Baikonur distinguia-se muito bem. Via-se na perfeição o perímetro do cosmódromo que aumentava de dia para dia. Também se notava a intensa actividade do bairro residencial que crescia nas imediações alojando os 3200 operários, cientistas, engenheiros e respectivas famílias. Não era a primeira vez que Abu viajava de avião. Por diversas vezes tinha ido em representação do Partido à capital mongol, Ulan Bator. Essas viagens tinham sido efectuadas no âmbito da instalação de um governo de cariz marxista-leninista na Mongólia (havia o risco de a China avançar com um governo maoista). As indicações de Abu eram muito precisas. Orientar o povo mongol na transição do nomadismo para sedentarismo. Essa tarefa implicava fixar as populações em aglomerados rurais (kolkozes, sovkozes) e aglomerados urbanos cujos habitantes nómadas seriam convertidos a operários fabris. O Cazaquistão na era pré-soviética, havia sido um povo nómada da estepe tal como os mongóis. A experiência cazaque de edificação do socialismo deveria agora ser transplantada para a vizinha Mongólia. Abu tinha sido dignitário dessa tarefa.

Os Urais começavam a aparecer no horizonte. Já pouco faltava para chegar a Moscovo. Abu nunca tinha ido à grande cidade. Quando o Tupolev começou a sobrevoar a capital, Abu começou a avistar vários locais que lhe eram familiares pelas imagens de propaganda difundidas por todas as repúblicas da URSS. Obviamente que reconheceu com facilidade a Praça Vermelha. No entanto ao avistá-la desatou a rir-se às gargalhadas sem se conseguir controlar, até que a hospedeira de bordo, Svetlana, se dirigiu a Abu perguntando:

-O camarada sente-se bem?

Abu veio a si, recuperou o fôlego, conteve-se e respondeu:

- Sim! Simplesmente lembrei-me de uma situação ridícula que se passou comigo a semana passada.

Svetlana retirou-se, não muito convencida. Na verdade, o que catalisou o riso em Abu foi o Kremlin. Nunca tinha visto o Kremlin. Somente em livros. Visto do avião pareceu-lhe simplesmente uma construção de um qualquer conto para crianças. Como era possível que a URSS, o maior país do Mundo, fosse governado a partir de um edifício que mais uma parece um palácio de princesa, pensou Abu. Assim que desceu do avião não lhe passou despercebida a frase em letras garrafais que acompanhava toda a fachada do edifício do aeroporto:”PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNI-VOS”. Acabou de descer o último degrau da escada e aproximou-se um Volga a grande velocidade de onde saíram dois homens de porte considerável que rapidamente o interpelaram:

- Camarada Orabi?

- Sim, sou eu. - Responde Abu.

-Acompanhe-nos por favor. O Camarada Estaline está no Ministério da Economia e dos Planos Quinquenais à sua espera.

Entrou para o carro e viajou com destino ao ministério percorrendo as ruas de Moscovo. Da janela do carro voltou a avistar novamente as cúpulas das torres do Kremlin, mas desta vez conteve-se para não se desfazer em risos. Mesmo assim esboçou um sorriso de soslaio que mereceu o olhar desconfiado dos dois homens.

Nesse momento Abu pressentiu que alguma coisa iria correr mal.

20 de março de 2007

TC

Joe Bell pousou desdenhosamente os martinis frescos diante de nós.
- Tente nunca se apaixonar por um animal selvagem, Mr. Bell - aconselhou-o Holly. - Foi aí que o Doc errou. Estava sempre a trazer animais selvagens lá para casa. Um falcão com uma asa partida. Uma vez apareceu com um lince adulto a coxear. Mas não podemos confiar o coração a um animal selvagem: quanto mais lhe damos, mais forte fica. Até ter força suficiente para largar a correr para a floresta. Ou voar para uma árvore. E depois para uma árvore mais alta. E depois para o céu. É o que lhe vai acontecer, Mr. Bell, se se apaixonar por um animal selvagem. Acaba a olhar para o céu.
- Ela está bêbeda - informou-me Joe Bell.
Truman Capote, Boneca de Luxo

sms

Recebida ontem, 19 de Março, às 10h28 (por engano) :

"olha amor eu saio as onxe e quarenta vem me buscar. amot e amo te amo te"

18 de março de 2007

Peter Gabriel - mercy street

16 de março de 2007

_ clique na imagem para ampliá-la _

Respigar Afectos

Prazer!
Prazer genital de te escrever esta carta breve.
Sentir os eflúvios da tua pele, a cara carcomida e macilenta.
Perder-te no escuro da tua infância, do teu odor a jasmim.
Modorra nacarada do teu corpo. Triste figura curvada
para a minha profusão doentia.
Caíste-me no goto da carne, lambi-te a mais dura dor de um canto
por te escrever. Puta de vida, puta de raiva ao amanhecer!
Doenças da mente, loucura convincente. Testículos por enraizar no mundo.
A lembrança do escárnio no teu umbigo ferido de afecto, a esperança de dias interrompidos.
Coitos consumados na ambígua ternura do olhar. Pétalas ensanguentadas
e um verbo por cumprir.
Dar-vos trabalho para compreender, dar-vos a luta e as noites de diversão.
Levar o pão e as sementes. Partilhar a ceifa dos dias luminosos.
Respigar agora, digerir as faustas fantasias!

Prolífico dia post(ul)ado

Acho bem as respectivas alvíssaras a oddm. Fica bem e não custa nada!

odanado_druida_maníaco
odesodorizante_demoníaco_maltratado
odom_da_masturbação
odão_de_moimentadabeira
odisco_divina_melancolia
odiabrete_da_mesopotâmia
odiospiro_dinamarques_mutilado
odolo_depressivo_mascarado
odalai_dama_morreu
odantesco_diluvio_marítimo (sugestão para o próximo album de Mão Morta ou JP Simões)
-podem usá-lo, não cobro!
Usá-los a todos.
Apenas palavras, palavras, putas palavras.
Fodidas, comidas e vendidas ao desbarato!
Usadas na mais reles viela da tua boca!

sai dessa lama, jacaré!

Acabou o período de nojo. O estar "só, com os [nossos] lobos". Afinal, nas palavras de oBS, o blogue é um tamagotchi sempre à espera de ser acarinhado e mimoseado. Veio oddm acordar-me da letargia com um duelo de titãs, a mim que só conheço "domus e os titis", uma banda-liceu dos meus tempos e do meu liceu.

E vinhos, e vinhos. Que os das soalheiras VN Tazem, Silgueiros, Nelas, que são bons, que caem bem, que vão melhor, que sim. Em verdade, em verdade vos digo, nessa região, nas margens deste Dão há bons vinhos, mas este:

CASA DE MOURAZ Branco, DÃO DOC, 2004.
Vinho produzido a partir de uvas das castas de Malvasia-Fina e Bical, cultivadas de forma ecológica sem herbicidas e agroquímicos de síntese, provenientes de vinhas com mais de vinte anos, num respeito absoluto pelo terroir de origem. Após a fermentação a temperatura controlada, estagiou 5 vezes em borra fina, parcialmente em carvalho "allier". Para preservar todas as suas características, não foi sujeito a estabilização pelo frio e filtração.


Um vinho que estagia cinco vezes (estágios não remunerados, por amor ao rótulo!) tem de ser bom. E é biológico, i.e. as videiras não usam desodorizantes que contêm CFC - Castas Fora de Controlo - nem depilam as varetas, o que confere a este vinho um odor bem característico. A degustar.
Por entre origamis e mortos-vivos, actualizei a lista de blogues da "malta dread". A maioria pertence a pessoas aparentemente iguais a tantas outras, mas que um dia tomaram a mais drástica das decisões, disseram "basta!" e meteram-se com esta estranha gente que são os bloggers de Maria Pernilla. Entre estes, o blogue da Mulher Tombada. "C`est l`histoire d`une societé qui tombe" e nós tombamos com ela.


A este improvável caldo, e por sugestão de oddm, juntei as ligações à rádio que alterna e à RUM (rum, rum rum rum! Pega no copo toma lá mais um!, assim cantava a Tonicha quando a Tonicha cantava.) Estas duas rádios juntam-se à RUC (vinte anos sempre no ar, num computador ou numa Coimbra perto de si!). Assim, podemos ser Raddies num dia, Rummers no outro. E sejamos sempre Ruckers!*








E mais virão. Mais rádios (as do Estado, antes pai agora padrasto, há que acompanhar as transformações sociais), mais posts - tenho oito na cabeça e dois no nariz - e o futuro o dirá, o presente diz-me que me doem já os dedos. Se se forem estes, que fiquem os origamis.
* Parem os relógios! Ainda este mês, a 28, Ursula Rucker pisa o palco do TAGV.

Coimbra azul

Começou ontem (tosse tosse). Termina amanhã.
O quinto Festival Internacional de Blues de Coimbra. Todos os dias - ontem (pigarreio), hoje e amanhã, no Teatro Académico de Gil Vicente.

de "os cus de Judas"

Os grilos de Mangando enchem a noite de ruídos, um dilatado e grave som contínuo sobe da terra e canta, as árvores, os arbustos, a miraculosa flora de África solta-se do chão e flutua, livre, na atmosfera espessa de vibrações e de cicios, o tipo amarrado à marquesa agoniza a um metro de mim à laia das rãs crucificadas nas pranchetas de cortiça do liceu, introduzo-lhe ampola após ampola nos músculos do braço, e queria estar a treze mil quilómetros dali, a vigiar o sono da minha filha nos panos do seu berço, queria não ter nascido para assistir àquilo, à idiota e colossal inutilidade daquilo, queria achar-me em Paris a fazer revoluções no café, explicando como se combate o fascismo, ou a doutorar-me em Londres e a falar do meu país com a ironia horrivelmente provinciana do Eça, falar na choldra do meu país para amigos ingleses, franceses, suíços, portugueses, que não haviam experimentado no sangue o vivo e pungente medo de morrer, que nunca viram cadáveres destroçados por minas ou por balas.

António Lobo Antunes

15 de março de 2007

António Lobo Antunes - Prémio Camões

Um reconhecido prémio a quem o merece. Sem mais palavras.
Essas deixo-as para o mestre da escrita! vão ao site do público
e cliquem na imagem. Divirtam-se! www.publico.pt

7 de março de 2007

Peripécia Teatro - Macedo de Cavaleiros

Continuando a discorrer sobre algumas das companhias do nosso património teatral, existe uma no distrito de Bragança, aliás a única profissional no momento. Tal como a maior parte das companhias situadas fora dos grandes centros urbanos, faz teatro itinerante, percorrendo o país e a Galiza de lés-a-lés. A peripécia é uma companhia recente, que se instalou curiosanmente em Macedo de Cavaleiros, um concelho bastante mais pequeno que Bragança, que até possui um fabuloso Teatro Municipal. A peripécia dedica-se a espectáculos de índole diversificada, como os para a infância, ou de muita interacção com o público, explorando o lado cénico-visual das representações. Formados em 2004, com actores oriundos quer de Portugal, mas também do outro lado da fronteira. Como espectáculos, há a salientar a sua primeira produção "Ibéria - A louca história de uma península", que estreou no Novo Ciclo da Acert, em Tondela. Depois disso, o espectáculo andou (e ainda anda) em digressão por todo o país. Eles fazem teatro de repertório, ou seja, mantêm os espectáculos por muitos anos. Actualmente, o seu espectáculo mais representado é "Sou do tamanho do que vejo", dirigido por Luís Blat. É uma companhia em expansão, que percorre os vários festivais de teatro nacionais e alguns internacionais, o que lhes permite mostrarem-se e serem mais conhecidos. Auguro um bom futuro a esta Companhia, se continuar a trabalhar desta forma, com calma e sem querer dar passos demasiados grandes que não os poderiam depois aguentar. Mais informações, vão ao seu óptimo site www.peripeciateatro.com e divirtam-se. Vão estar em Tondela com "Sou do tamanho do que vejo" nos dias 23 ( para as escolas) e 24 de Março (às 21.45 h), na ACERT. A não perder!

6 de março de 2007

Mao Morto Vs odeusdamaquina - duelo de titãs!!!

Pois é, vou abrir as hostilidades e dizer desde já que este Mão Morto é um troca tintas! Muda de nome como quem muda de T´Shirt (sim, porque aqui somos contra as camisas - excepto as de Vénus), naufragando ao sabor das opiniões bacocas e porque não dizê-lo, ignaras! Já agora: Acintosamente inúteis, esfalfadas de um sentido estético em devaneios pseudo-culinários, que a farinha Amparo já não bate assim.
Nesta questiúncula, há que adossar relativamente a esta bestial (de besta) criatura, o facto de tão somente ser audível as suas irrisões metalinguísticas. Um pormenor de somenos, se atentarmos no facto de ser na música inter-nacional o seu refúgio ditirâmbico para tais deambulações. Por isso aqui afirmo: escreva algo de jeito, em condições!
Eu pretendo que falemos dos mais variados assuntos, e que estejamos sempre em desacordo! O que é que este amigo traz de novo? - a opacidade, o vácuo! O que é que ele e a sua maralha infecta Tazém de novo? Nada Tazém!
Poderíamos começar por falar sobre uma questão: Porque é que cada vez mais no nosso país se afirma que "No tempo de Salazar...é que era bom!", ou " Se o Salazar estivesse vivo, as rendas não eram tão caras" (isto ouvido hoje, no Jornal da Tarde da RTP sobre o aumento de rendas por parte do Sr. Rui Rio - eu é que me rio de tão alarve criatura!).
Bom, pois eu digo-vos: Será culpa do programa "Glandes (dos) Portugueses" ?
Não sei, mas uma coisa é certa: ele (SalAzar - mistura de hipertensão com todo o mal do mundo) é apreciado por muitos portugueses! Ainda este sábado houve a manifestação em Santa Comba Dão (Vimieiro -mais concretamente) acerca da Inauguração da Casa/ Fundação/ Museu da Ditadura, a Salazar!
E agora, só resta esperar pela resposta do Mão Morto (Mar Morto?, Cão Morto Rei posto?), pois eu sei que ele é dos apoiantes de Salazar! Ao contrário da minha pessoa, que sou anti-clericalmente adepto da Ditadura Política.
Quanto ao resto, adoro ditaduras! Ditadura do Corpo esbelto, Ditadura de Dentes, Ditadura do Papel Higiénico Preto, Ditadura da Alheira de Mirandela e Miranda do Douro, Ditadura da Vitela de Lafões, Ditadura do Queijo da Serra de Estrela, Ditadura da Cabeça do Velho em Gouveia. Ali, imponente, como que a dizer: ai queres subir à Serra? Então dá-lhe gás! Bom, são questões pertinentes vindas de uma pessoa douta, como a minha pessoa, em contra e justposição àquelas do senhor Mão Morto, que não nos dá a alarvidade sequer da sua opinação! Ao menos que nos oferecesse um Vinho do Dão! De Silgueiros, ou de Tondela, ou de Vila Nova de Tazém, ou de Lafões! Considere-se um fraco! Responda, se tiver Glande Coragem! Aquele Abraço Marialva, Fadista e Pimpineiro!


Mais youtube (ou Mao Morto em piloto automático).
Dream Brother (remisturada) de Jeff Buckley. Vídeo realizado por Merri Cyr.

1 de março de 2007

Filandorra - Companhia de Teatro do Nordeste

Depois do Teatro do Noroeste, de Viana do Castelo, agora, o Teatro do Nordeste, sediada em Vila Real, mas um teatro essencialmente itinerante, que percorre toda a província de Trás-os-Montes, para lá do Marão, para o Nordeste transmontano. Criada em 1986, o seu director é desde essa data, David Carvalho. Uma companhia que essencialmente trabalha repertório nacional, repetindo os espectáculos por muitos anos, especialmente aqueles que são dirigidos ao público escolar. São conhecidos os espectáculos: "Frei Luís de Sousa" de Almeida Garrett; "Contas Nordestinas" de A. Pires Cabral; "Auto da Índia" e "Auto da barca do Inferno" de Gil Vicente; mas também alguns autores estrangeiros. Apostam fortemente na itinerância, sendo a Companhia que mais acordos tem com as Câmaras Municipais para a realização dos seus espectáculos. Nos distritos de Vila Real, Bragança, Braga, Viana são dominadores absolutos, pois já fizeram espectáculos em quase todos os Concelhos. É a política da Companhia, que prefere a quantidade à qualidade. Digo isto, embora queira ter uma posição neutra, mas já vi dois espectáculos da Filandorra e o resultado foi sofrível ao nível da Encenação e da Interpretação dos Actores. O meu conselho a dar seria o da formação e contratação de novos actores que tragam sangue novo, assim como o convite a novos e diversos encenadores para mudar a estética da Companhia.
Infelizmente, a Companhia ainda não apostou nas novas tecnologias, pois não possui um site. A rever, pois é importante nos dias de hoje!
Para terminar, o significado de Filandorra: Etimologicamente a palavra "filandorra" poderá significar fiadeira. É exactamente a fiar e a bailar que ela se apresenta e o que faz em todo o percurso do peditório. Trata-se de um jovem vestido de mulher, com renda na cara para não ser reconhecido, roca numa mão e fuso na outra, sempre a fiar. A filandorra enquadra-se igualmente nas funções dos mascarados destinadas a assegurar a boa marcha da comunidade, através da "reprodução dos trabalhos fundamentais para o grupo". in "Rio de Onor - A Festa dos Reis", de António Pinelo Tiza (www.bragancanet.pt/amigos-bg/reporter.htm)
Boas Leituras!