27 de fevereiro de 2006

Corre atrás deles!

O Trigo Limpo Teatro ACERT comemora 30 anos de existência! E, para os mais incrédulos, aqui está a prova irrefutável:



Acreditam agora?

O Trigo Limpo Teatro ACERT itinera! Vejam com os vossos próprios olhos:




E são quatro-espectáculos-quatro! A saber (com os respectivos locais e datas de apresentação):

Materna Doçura

Santa Comba Dão - Casa da Cultura
11 de Março às 21.30h

Viseu - Teatro Viriato / CRAEB
16 e 17 de Março(16 às 15h e 21:30 e dia 17 às 21:30h)

Coimbra - TAGV
30 e 31 de Março às 21.30h

Guimarães - Centro C. Vila Flor
6, 7 e 8 de Abril (6 às 15h, 7 e 8 às 21.30h)

S. Pedro do Sul - Cine-Teatro
24 e 25 de Abril(24 às 15h e 21.30h, dia 25 às 21.30h)

Lisboa (Santos) - Teatro Cinearte
28, 29 e 30 de Abril e 1 de Maio

Porto - Teatro Rivoli
6 e 7 de Maio

Guarda - Teatro Municipal
13 de Maio

Estarreja - Cine-teatro de Estarreja
20 e 21 de Maio

Torres Novas - Teatro Virgínia
26 e 27 de Maio


Bicicleta de Recados

Vila Real - Teatro de V. Real
3 de Março às 21.30

Mafra - Biblioteca Municipal
21 de Março às 15h

Tondela - Novo Ciclo ACERT

Figueira da Foz - Casino da Figueira
18 de Abril às 22:30h


Os Cantos da Língua

Tondela - Novo Ciclo ACERT - Estreia
27 de Março às 21h45

Viseu - Teatro Viriato / CRAEB
26 de Abril às 21.30h

Estarreja - Cine-teatro de Estarreja
19 de Maio às 21.30h


Uma História A Penas

Tondela - Novo Ciclo ACERT
7, 8 e 9 Março às 10h30 e 14h30

Figueira da Foz - Casino da Figueira
14 Março às 22:30h

Mangualde - Salão Paroquial
24 Março às 10h30 e 14h30


(O Trigo Limpo prepara já o próximo espectáculo, "Cantos da Língua", com estreia prevista para finais de Março.) Não se esqueçam!

Curiosos? Então vão a www.acert.pt e conheçam a programação da ACERT.

24 de fevereiro de 2006

História para fazer chorar e amar

- Vou-me embora!
Foi deste modo seco que Leila abandonou o apartamento, terminando a conturbada relação que manteve com André durante quatro anos. Este não respondeu; sentado à secretária, olhou-a de viés e franziu as sobrancelhas.
Estava de novo sozinho. Depois de mais uma relação fracassada, André começava a pensar que se tornaria num desses suburbanos que passam sós pela vida, conhecendo poucas pessoas, e mesmo assim a um nível superficial. Rapidamente esqueceu Leila, recordando apenas a frase que marcou a despedida. Aquele "Vou-me embora" soou-lhe mal, como se fosse dito por um qualquer actor da série "Riscos" - eles conseguiam dizer: "Estou grávida. Quero-me matar!" como quem diz: "Nunca vi um café tão mal tirado como este."

Continuou a sair de casa para o escritório às oito e vinte, regressando às cinco e meia da tarde, mas deixou de frequentar o ginásio lá do bairro, onde se tinha inscrito por ordem médica, no seguimento de problemas de excesso de peso e complicações cardíacas. Ia com Leila, e os exercícios eram monitorizados pelo instrutor. Mas agora não tinha vontade de ir. Não apreciava muito os olhares gulosos que aqueles "engatatões de bairro", como lhes chamava, atiravam à sua namorada. Agora André não estava para enfrentar os comentários dos vizinhos.

Passaram dois meses. André engordou, perdeu mobilidade e passava cada vez mais tempo isolado no seu apartamento. Até que resolveu procurar uma companhia que o ajudasse a suportar a solidão que sentia. E decidiu-se pelo teletexto da SIC. De quando em vez, lá ficava a ver aqueles estranhos anúncios a passar no ecrã da televisão. "Poderei encontrar quem me queira conhecer!" - pensou. Registou-se e colocou o seu primeiro anúncio. Poucos segundos depois, o seu coração batia forte quando viu passar no ecrã:

RomoMan37 20:16>
M solteiro trintão, procura F para amizade e possível relação. Lisboa e Lisboa-Norte. Rsp para privado (só chamadas, não a Kolmis ou toks).

Ficou a ver as palavras que tinha acabado de enviar até estas desaparecerem do ecrã. Poucos minutos depois, voltou a colocar o anúncio e a aguardar resposta.

Mas ninguém respondeu. Nem nessa noite, nem nas seguintes. Enviava a SMS várias vezes ao dia, mas nada de respostas. Até que se resignou: "Elas são tímidas e receosas, não querem assumir compromissos." E, numa dessas noites, por mera brincadeira, pôs várias vezes este anúncio:

RomoMan37 18:53>
Aluga-se cadáveres para sexo ao vivo.


"Já que toda a gente parece andar aqui à procura de sexo, pode ser que alguém ache graça a isto". Mas, para sua surpresa, a sua iconoclastia (como lhe chamou) pareceu dar resultado. Recebeu uma SMS de alguém dizendo ser uma rapariga que queria contactá-lo e lhe indicou o seu endereço de Messenger. André adicionou esse endereço à lista, e daí a poucos minutos já estavam a ter uma conversação vídeo pelo Messenger.

Ana Débora (pelo menos assim disse chamar-se) vivia na região Oeste e era estudante de Design Gráfico. Nessa noite abordaram assuntos superficiais - livros, filmes, teatro. Ana Débora tinha gostos algo distintos de André, o que provocou alguns comentários divertidos a ambos. Quando se despediram, combinando novo "encontro" para o dia seguinte, André tinha ficado com uma impressão positiva da sua nova "amiga virtual" - isto apesar do nome dela. Mas tinha também a sensação que ela se esquivava a falar de assuntos da sua vida privada, como se receasse partilhar a sua intimidade com um estranho. Nada de anormal, pensou André. E foi dormir.

Teclou mais algumas vezes com Ana Débora, sempre sobre assuntos triviais. Mas uma noite decidiu-se a perguntar-lhe se estaria disposto a conhecê-lo pessoalmente. Os dedos tremiam-lhe quando ligou o portátil e iniciou a sessão do Messenger. Para não ser incomodado, bloqueou os outros contactos. Cumprimentaram-se e começaram a "conversar". Minutos depois, André escreveu, trémulo, a ansiada pergunta:

Posso conhecer-te pessoalmente? Gostava de me relacionar contigo... :)

E foi nesse momento que sentiu como que uma forte picada no coração. Levou a mão ao peito, num gesto desesperado, e fez um esgar aflitivo. Pouco depois, tombava inanimado no chão da sala do apartamento. Acabara de sofrer um AVC que lhe foi fatal.

Marlene (ou "Ana Débora", como disse chamar-se) assistiu a tudo horrorizada, através da imagem da webcam. Ficou alguns minutos incapaz de reagir, limitando-se a olhar para onde a cara de André estava, mas agora só se via a parede azul-claro ao fundo da imagem. Lentamente, começou a reagir. Ia fazer de conta que nada tinha acontecido, para evitar preocupações futuras. Excluíu o endereço de André da sua lista de contactos e desligou o computador. Poucos minutos depois, chegou Davide, o seu namorado.

- Olá, amor!
- Olá, Marlene! Hoje o autocarro chegou mais cedo, vá lá saber-se porquê! Que tens? Estás tão lívida!
- Nada de especial! Estava só a pensar... estou farta de viver na Lourinhã. Porque não nos mudamos de vez para Lisboa? Já viste o tempo que gastas daqui até à repartição? Andas sempre cansadíssimo!
- Ó amor! Mas eu gosto de viver aqui! E pelo menos tens muito espaço para o teu atelier! Lá em Lisboa um apartamento destes ficar-nos-ia a um preço incomportável! E a Virginia pode passear à vontade! Tens reparado como ela anda feliz da vida?
- É, acho que tens razão! - disse Marlene Debyane, beijando-o. - Hoje vamos jantar ao chinês. Agrada-te?

23 de fevereiro de 2006

Tríptico Regular

Rostos
Endurecidos
Na chama do olhar

Pedras
Ausentes
Na emergência do sonhar

Fogos
Translúcidos
Na poeira do devir

Castas
Sementes
Na lucidez da evasão

Artes
Eternas
Na efervescência do sentir

Partidas
Regressos
Na poesia do coração

19 de fevereiro de 2006

Welcome to planet Sexor!

"Ladies and Gentlemen, Welcome to planet Sexor, where imagination rules the nation, the rain washes you clean and where sexy lightening ALWAYS strikes twice!"




São as boas-vindas ao primeiro álbum de originais de Tiga, o mago do Canadá (donde chegaram aos escaparates mundiais nos últimos tempos os Arcade Fire). Podemos mesmo dizer que Tiga está para a cena da música de dança actual como eu estou para mim (e assumo todas as consequências destas palavras!). Tiga é o espectro que paira orgulhoso sobre os destroços do electroclash, um género de música dançável que afinal não passou de um fogo-fátuo (a propósito do Canadá, por onde andará agora essa "Fatherfucker" da Peaches?

Já aqui falei de Tiga, a propósito da esplêndida remistura para "Me and Madonna" dos Black Strobe (aliás, todos querm ser remisturados por ele, mesmo o próprio!) Em "Sexor" nem tudo é novidade, pois inclui singles já editados em trabalhos anteriores do super-artista: "Louder Than a Bomb", "Burning Down The House" e "Pleasure From The Bass" são temas assíduos da "Caixa de Ritmos" da Antena3 (os leitores de Madagáscar e do Burkina Faso podem escutá-la aqui). A Antena3 passa na sua playlist diária o single "You Gonna Want Me".

E chega de prosa! Vou ouvir até mais não poder, vou desafiar a gravidade, atravessar paredes, caminhar no tecto... Sofrerei mazelas, mas "Sexor" vale bem isso e muito mais!


Mas antes disso, uma outra informação acerca de "Sexor" (sim, porque Maria Pernilla é um espaço de serviço público, acima de tudo.)

Tal como o álbum de Tiga, este Sexor também é estimulante.



Combate a impotência masculina. Apresentação : 1 frasco / 80 cápsulas. Tomar 4 a 6 cápsulas à refeição que precede o acto. É composto de 5 plantas : Allium Sativum, Guarana, Acérola, Ginseng, Pimenta... Pode ser encomendado aqui.

14 de fevereiro de 2006

As minhas cinco manias

Decidi finalmente aceitar a proposta que me foi feita através desta blogosfera por onde vagueiam, de vos falar de cinco das minhas características, hábitos ou manias. Em resposta ao Al e à spyware, aqui vai então o relato de cinco dos hábitos que mantenho.

Não publiquei este texto antes, porque estava renitente em dar a conhecer-me deste modo - prezo muito um certo distanciamento brechtiano (bolas, não consegui evitá-lo!). Mas a não publicação deste escrito poderia ser tomada como uma desconsideração aos visados, e ficaria em cheque para com eles - e como costumo dizer, "A Língua pode estar morta, mas é bem-educada!"

Segue a lista das cinco manias:

1 - Gosto de ir almoçar à cantina B da Universidade. E por vezes, quand me sinto entediado, escolho a oitava pesssoa atrás de mim na fila (é sempre a oitava!). E é assim que decido quem será a minha próxima vítima.

2 - Antes de escolher o melhor momento e a altura mais propícia do dia para atacar a minha presa, gosto de usar um bigode postiço enquanto lhe espio os passos e desvendo os hábitos. Mas tento não me aproximar demasiado dela, para não arriscar ser detectado.

3 - Depois de assassinar as minhas vítimas, tenho o hábito compulsivo de abrir a bagageira do carro para onde as forcei a entrar. Ali fico, por vezes durante várias horas, a cheirar-lhes os odores corporais que ainda por ali permanecem. Quase juraria que posso sentir naquele acanhado espaço a pulsação acelerada, os olhos esbugalhados e o puro pânico de quem lá esteve.

4 - Não há tarde de Sábado em que não me dedique a polir a colecção de facas que os meus pais trouxeram de África. Contam eles que foram usadas em inúmeras caçadas e fizeram tombar muitos animais selvagens. E eu sei que elas desempenham muito bem essa função.

5 - Aos domingos, vou sempre à missa das onze. E, enquanto a restante assembleia entoa os cânticos e escuta as palavras do Abade, eu mantenho uma silenciosa conversa com a imagem de São Sebastião, o padroeiro da paróquia onde frequento a Eucaristia. E de todas as vezes a conversa imaginária termina com a minha promessa de deixar de matar pessoas.

Posto isto, devo dizer-vos que vou interromper esta cadeia de revelações, pois acredito que as pessoas que eventualmente nomeasse para continuar esta cadeia poderiam sentir-se de algum modo ameaçadas pelo meu texto. E não pretendo fazer-lhes mal.
Obrigado.

Um dó li Traa!

Os noruegueses andavam com a sua auto-estima a um nível perigosamente baixo. E desde o "boom" dos telemóveis pior ficaram. A Finlândia tem a Nokia e o Kaurismaki, a Suécia tem a Ericsson, a IKEA e o Bergman (já tiveram os Abba e o Bjorn Borg, mas ai de quem os lembre disso!), a Dinamarca tem o Lars von Trier! E os noruegueses? Têem o bacalhau e o creme para as mãos Neutrogena? Decadência!

Mas isso era dantes! Agora os noruegueses provocam a mais soez das invejas nos seus vizinhos escandinavos! Eles têem a Kari Traa!

Sim, a Kari Traa!



(Como se pronuncia este nome esquisito?) Para Kari pensem em "cárie" (antes uma cárie que o Macário!); para Traa deixem a boca aberta por um instante depois de dizerem o nome, para prolongar o "aa". Vou dar-vos uns momentos para que exercitem a vossa dicção...
...

Kari é mais conhecida por fazer isto...


Mas já foi vista a fazer isto...


E também gostava de vir a fazer isto!

Traa está a revolucionar o mundo, tal como o conhecemos. Senão vejamos:

- o Vaticano já decretou uma alteração de dizeres na celebração da eucaristia. Dentro de pouco tempo, quando estiverem na missa e o celebrante disser: "O Senhor esteja convosco!", a assembleia não responderá: "Ele está no meio de nós!", mas sim "Kari Traa no meio de nós!"

- Tiga, o super-DJ canadiano, já começou a trabalhar numa nova remistura de "Me and Madonna" dos Black Strobe. O refrão passou de "Madonna is in love with me, me and Madonna! It`s so sweet to be with you, you`re my silicon love!" para "Kari Traa is in love with me, me and Kari Traa! It`s so sweet..."

- em Portugal, a Cáritas, numa operação de marketing sem precedentes, está a tentar que Kari Traa seja o rosto da organização, aproveitando a semelhança fonética entre os dois termos. A Cáritas poderá assim tornar-se numa das instituições mais poderosas a nível nacional, superando de longe a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Prevê-se que das negociações em curso sejam conhecidas novidades em breve.

Até o Ti Acácio (lembram-se dele ?) comprou já uma boneca modelo Traa, que o fez esquecer a amargura de perder a Lola!

Posto isto, resta dizer que estamos em presença da superestrela de todas as superestrelas, da pin-up de entre as pin-ups. Depois dos vikings, a Noruega volta a conquistar o mundo!

E agora, algo de completamente diferente!

Esta é a estória do Bruxo de Fafe
e já se sabe que "com Fafe ninguém fanfe!"
Assim sendo, este homem garboso,
com sua fé inabalável,
foi de Guimarães até Braga, ou seja,
25 Quilómetros, para rezar à Santa do Sameiro,
e dar resultados positivos ao Vitória de Guimarães,
clube da sua predilecção.
E assim foi ele, com uma cruz de madeira enorme,
e com o retrato de todos os jogadores da equipa,
para os livrar da descida iminente!
Podem não acreditar, mas o que importa é que o Vitória
ontem, conseguiu ganhar, e melhor, fora de casa, no terreno
do Marítimo do funchal. É obra! Este homem merece um lugar no céu
e outro na direcção do Vitória e uma estátua em Guimarães! Qual
treinador, qual quê! Estes homens é que nos salvam!
Parabéns ao Bruxo de Fafe e por nos livrar o Vitória da descida! olé, olé!

Dia de São Loureiro

Ah, Valentim Valentim!
Quem comeu o teu pudim?
Oh, Major, Major
que cena de horror!

Quem te comeu o apito
que de tão dourado
ficou logo usurpado
na conta do dito?

Ó namorado de Portugal
Gondomar está contigo!
Tu sempre foste bom amigo
daqueles que não te querem mal!

Mas Gondomar é dos Gondomarenses!
Como a TV é dos Telespectadores
e a Merche Romero é de todos!
Ui, que fartote a rodos!

Esta estória sem fim
do Major Valentim
é pra comemorar o seu dia
e a c*** da sua tia!

11 de fevereiro de 2006

Oportunismo?



Confesso que há uns tempos que estava "com ela fisgada". E hoje vi a notícia que me impeliu a republicar um texto que postei na "moribunda" Cabala Involuntária sobre Fátima Felgueiras. Por isso, não a acusem de oportunismo por ter organizado uma peregrinação a Fátima, o nosso "altar da fé". Oportunista sou eu, que aproveitei este fait divers (ou fight divers , como diria um outro) para, num gesto de vileza sem precedentes, voltar a impingir este texto, à guisa de homenagem a uma certa noção de portugalidade.
(Alterei entretanto um pequeno-grande-pormenor, considerando um comentário de o-microbio)

Fátima parte 2 (ou a eternização da falácia)
Em 1917 o poder eclesiástico "convenceu" as massas iletradas de Portugal de que Nossa Senhora tinha "aparecido" a 3 pastorinhos numa aldeola perto de Fátima. Provavelmente influenciadas por estes acontecimentos, e ao abrigo de uma fé inabalável que a partir daí se disseminou, milhares de mães decidiram atribuir o nome Fátima aos seus rebentos.

E uma dessas crianças tornou-se num dos maiores cromos num país onde tal adjectivo assenta que nem uma luva a tanta gente... Pois bem, numa coincidência quase bíblica, Fátima Felgueiras tornou-se presidente da Câmara da cidade com o mesmo nome... Mas estas divinas coincidências não a impediram de ser acusada de desviar fundos públicos para o seu próprio saco, azul-da-cor-do-céu comme il faut. Foi descoberta pelos infiéis e fugiu para o Rio de Janeiro, para poder contemplar a estátua do seu adorado Cristo Rei. Para desabafar os seus anseios recorreu amiúde (sem trocadilhos s.f.f.) a um tal Padre Frederico. Mas não ficou só. Um numeroso e acéfalo séquito por cá ficou, a salivar pelo regresso da sua mais-que-tudo...

Mas FF não poderia voltar, pois seria imediatamente detida... As eleições autárquicas aproximavam-se, e a perspectiva de perder aquele trono, seu por direito, aterrorizava-os... Que fazer? Até que alguém se lembrou de completar a frase "A justiça é cega". E ficou assim: "Em Portugal, a justiça é cega perante os crimes dos poderosos" (excepto o Vale e Azevedo e poucos mais). E tudo aconteceu de acordo com os desígnios de Fátima. Desembarcou, foi detida, mas uma providencial juíza logo ordenou a libertação de tão insigne criatura, cujo porte a tornaria declaradamente indigna de povoar a cadeia de Tires. Pois Fátima, que é de Felgueiras, sentiu que o seu povo clamava por ela, qual Messias dos tempos actuais, e recandidatou-se desde logo ao cargo que lhe pertence!

Os media ficaram embevecidos por tão aclamado regresso e desde logo lhe consagraram toda a sua atenção. Fátima entrou então para a Galeria Dourada dos Santos Populares, juntando-se a Isaltino, Avelino, Valentim. E assim aconteceu. Há de novo uma Fátima entre nós, para delírio da turba imensa que é este Portugal cada vez mais tresloucado. Ah, agora ficamos à espera de uma ida de Fátima ao gigantesco hipermercado da fé nacional - Fátima, pois então! - agradecer as graças concedidas por este povinho de brandos costumes...

JLG e JPR



A propósito da exibição de "Odete", o CCV apresenta-nos a seguinte crítica:

“No anuário do cinema mundial, com três letras víamos apenas JLG. Agora será necessário pensar em acrescentar JPR. Jean-Luc Godard / João Pedro Rodrigues, é a esta altura que colocamos hoje o cineasta português."
Patrice Blouin, Les Inrockuptibles

Já "Joane e o Amendoim Saltitante" cantava: "... os críticos é que sabem!"

A não perder!

Serve só este post para vos transmitir um programa a não perder. Acontece na rádio, todos os sábados, entre as 11 e as 12 horas, na Antena 1. Chama-se ALMA NOSTRA, e é feito por dois grandes senhores com uma cultura vastíssima. São eles o Jornalista Carlos Magno e o Prof. Universitário (e Psiquiatra) Carlos Amaral Dias. Todas as semanas eles discorrem sobre os assuntos da transacta semana, mas sempre com uma acuidade, com uma visão global muito perspicaz, atenta e pejada de conhecimentos filosóficos, políticos, científicos, em suma, culturais. eu já oiço este programa há 2 ou 3 anos sensivelmente, e tenho aprendido imenso. Gostaria de divulgar aqui, porque o que é bom, é pra se mostrar, para se divulgar. Boas escutas.

10 de fevereiro de 2006

Sobre vivências do Olhar

Sexta-feira negra dos diademas
Opúsculos inexoráveis
na solidão do olhar

Terna é a noite
nas esquinas da paixão
as folhas caídas anunciam
Garrett e os escritos
de uma outra margem

Alcanças a vagamente
etérea luz dos aflitos
a sombra partilhada
noutra dança

O refúgio está no teu coração
selvagem, na temporal
caristia dos vislumbres
adocicados

Salva-se a onomantopeia
da crueldade
a fugaz linha do horizonte
marcado em linhas tangentes,
aderentes em elipses profundas

Ah! Fantasias do olhar,
do sabor a mel dos pássaros
da semi-obscuridade do teu corpo,
da tua juvenil aura de predadora
dos sentidos

Perdi-me nos vaga-lumes
da incensa e mordaz altivez
na cálida, secreta e frenética
atracção dos corpos lânguidos

Encontrei-me!
Cheguei a casa envolto em névoas
por apagar,
em sonhos por percorrer
em doces degustações
das opíparas sílabas
dos lábios desmesuradamente
enormes

E aquele sabor do teu sorriso
que me transforma num deus menor,
numa inusitada constelação
numa poeira de fragmentos
encantados no horizonte
do teu amar inquieto e brando

Socorri-me do teu abraço
para sobreviver!

8 de fevereiro de 2006

As Montanhas de Maomé e o Cinema Iraniano!

Se Maomé não vai à montanha,irá a montanha a Maomé?
Isto é uma dificuldade, mas sabemos que na região dos montes que se situam entre o Afeganistão, o Paquistão, o Irão, o Uzbequistão, o Azerbeijão e o Casaquistão, todas têm uma orogenia que é característica inigualável neste planeta. Esta orogenia causa, bastas vezes, enormes abalos sísmicos, o que faz com que seja mais fácil uma montanha deslocar-se do que o próprio Maomé! Lá está, não é piada, mas é verdade! Maomé não se mexe! E pergunto eu, para que nos serve um deus, se não mexe uma palha para nos ajudar? Quem diz um deus, diz um amigo, um político, uma amante! Portanto, mais valem as montanhas, com a sua pequena, mas vivaz actividade, que mexe nas casas de todos, na configuração das estradas, dos desertos, das pontes. Isto sim é vida! É cruel, mas é a natureza em acção!
Uma nota cultural a terminar: Um dos maiores e mais talentosos realizadores de cinema é Iraniano. Chama-se Abbas Kiarostami. Tem uma cinematografia ímpar, de qualidade, surpreendente, de crítica social, política, em suma, cinema de autor, por alguém que ainda arrisca a ser voz crítica para o seu povo, mas também para o que vem de fora, para o mau que o Ocidente traz ao seu país.
Um filme, que mostra os acontecimentos terríveis de um forte sismo no Irão, com milhares de mortos e desalojados chama-se: "Onde é a casa do meu amigo?", outros filmes: "O Sabor da Cereja" (a estória de um homem que se quer suicidar, mas que tem imensas dificuldades para o concretizar); "O Vento levar-nos-á" (a estória de um grupo de homens que espera a morte de uma anciã numa aldeia remota, mas ela nunca mais acontece); "Através das oliveiras" (a estória de um homem que procura incessantemente, anda quilómetros através das oliveiras, da sua amada. Leva sempre recusas, mas quem sabe, no fim...), "Dez" ou "Ten" (a estória de uma mulher de Teerão, rica, culta, evoluída, casada,com trabalho, mas que sofre com o seu marido porque ele não aceita a sua condição de mulher liberal, num país de costumes machistas, onde as mulheres ainda não têm voz. Um filme que pôs mais uma vez, o dedo na ferida do Islamismo, do Irão, dos costumes ancestrais.) Tudo filmes a não perder! E o próximo de Abbas Kiarostami, já com o reconhecimento de Cannes e Hollywood, deve estar a sair! Um nome a não esquecer, ou a lembrar, sempre que se fale de bom cinema!

6 de fevereiro de 2006

Domingo em Linhares



Tinha ido várias vezes a Linhares da Beira. Por isso, naquele Domingo frio e ventoso, mal saíu do carro, Artur já estava a perguntar quando regressariam a casa. Apesar de tudo, e para fazer a vontade à família, lá se dispôs a dar uma volta pela aldeia. Só não foram ao castelo, dissuadidos pelo vento tremendo lá do alto da torre.

Enquanto a família foi procurar a tasca mais próxima, Artur foi de câmara digital em riste até à igreja. A porta estava entreaberta, pois decorria um serviço religioso; por isso teve de esperar, contrafeito, pela família.

Entretanto, apercebeu-se da saída das pessoas da missa. Estava sentado nos degraus da igreja - ali sentado e de óculos escuros, um olhar menos atento poderia facilmente confundi-lo com um mendigo. Até que se levantou, impelido por uma voz que se sobrepunha à das poucas dezenas de pessoas que por ali ainda permaneciam.

- A vossa atenção por favor! Meus senhores, peço a vossa atenção! - Seria uma homilia ao ar livre? Mas o homem trajava "à civil", e só um padre muito persistente pregaria ali com aquele vento frio. E a voz prosseguiu:

- Tenho aqui um prato de broa com chouriça tradicional. É cá da terra, é para oferecer à paróquia para as obras no Centro de Dia! Ora, qual vai ser a primeira oferta? - Esperou um pouco. - Quem abre o leilão?

- Dez euros! Dou dez euros! - ouviu-se então.
- Muito bem! - disse o leiloeiro. - Está em dez euros! Quem dá mais? É para o Centro de Dia... Quem dá aos pobres empresta a Deus! Ora pois! Dez euros uma, dez euros duas... dez euros... dez euros...

Sem saber muito bem porqê, Artur sentiu-se na obrigação de animar as hostes domingueiras, naquele modorrento adro.
- Ó homem! - gritou. - Não venda assim ao desbarato a sua chouriça! Olhe que ainda lhe vai fazer falta!

Esperava uma ou outra gargalhada, mas o silêncio que se seguiu fê-lo entender que ninguém ali partilhava do seu sentido de humor tão espontâneo. Mas o pior veio depois. Olhando-o ameaçadoramente, aquela pequena turba lançou-se a ele, vociferando impropérios como "Pulha!", "Canalha!" e outros termos que não entendeu.

Mal se apercebeu disso, estava a ser conduzido à força para dentro do castelo (estava vazio àquela hora). Levaram-no até ao alto da torre, onde o magarefe da aldeia sacou de uma enorme faca. "Donde terá isto surgido? E a minha família que não me vem socorrer!" - pensou Artur, imediatamente antes de ser apunhalado repetidamente, enquanto a multidão soltava urros, num bárbaro júbilo.

Artur desfaleceu rapidamente - afinal o magarefe tinha o traquejo necessário para provocar a morte sem dor. Depois o cadáver foi esventrado, e os pedaços do seu corpo ficaram estendidos no chão.
- Que faremos agora a estes despojos? - perguntou uma velhota vestida toda de negro.
- Olha não sei! Aliás, vou guardar este pedaço para dar aos gatos mais tarde! - disse a padeira da aldeia.
- Vamos mas é apanhar estes pedaços para pôr num saco. Mais tarde nos lembraremos de um destino para eles. E se alguém de fora fizer perguntas, já sabem: bico calado!

Na manhã do Domingo seguinte, realizou-se um peddy-paper temático, em que os turistas tinham de procurar pela aldeia petiscos típicos da região, todos à base da carne de porco. E o evento culminou numa almoçarada no restaurante típico da aldeia, em que os petiscos encontrados no peddy-paper fizeram parte do manjar que a todos agradou. Foi sem dúvida uma bela promoção para a gastronomia da aldeia.



Imagem original em castelos2deportugal.no.sapo.pt/ icones/beira.htm

3 de fevereiro de 2006

Memórias de um Corpo

Primavera dos destroços
noite gélida, carcomida
Os humanos não suspendem o olhar
na margem viva da alegria

Insinuações do infinito
plácidos plátanos
correntes concorrentes
rasgam rugosas recordações

Doença, lassidão dos sentidos
Calma na tarde quente dos
afectos molhados
Suores frios, termodinâmica
dos sentidos
Amplitudes vasoconstritoras
do nosso coração

E a mão, que desenhava
grossos lábios, torturas
ao entardecer
Os tubérculos percorrem-te
os alvéolos pulmonares

É a tosse do infinito,
a decadência do espírito:
Jazem abandonadas velhas
preces rumorejantes
e um silêncio indecifrável

Diamantes lapidam
olhares ternos, fugidios
Anatomias variadas
de percursos tracejados
a carvão

Estás cansado!
Na implosão das estrelas
revês o teu corpo
imagético, abandonado

Sublimas-te nas paixões
etéreas, no animal que há em ti
na amordaçada fera
que, ensimesmada
dá festas ao seu leito frio

Acordas na orla dos sonhos
que tecem flamejantes odores
de uma vida vivida, plena de emoções!

2 de fevereiro de 2006

Um Ministério da Cultura finalmente livre de… Cultura

Um Ministério da Cultura finalmente livre de… Cultura

por Helena Vasconcelos

Um amigo meu, português de gema, artista com extensos, firmados e reafirmados pergaminhos, e reputação internacional claramente enraizada, com características que o afastam do modelo-tipo do espécime luso encartado, escolheu não viver “lá fora” e continuou sempre a trabalhar por cá, embora a uma distância curta do aeroporto mais próximo. Esse mesmo meu amigo, que sempre me disse que quem quisesse podia existir, resistir e subsistir em Portugal porque o que interessa é o que se faz, reconheceu recentemente – à luz das recentes proezas da Ministra da Cultura – que “já não quer saber de nada do que se passa em Portugal” e que “vive exilado na sua própria terra”, preferindo fechar os olhos, os ouvidos e a boca, nesta sociedade de imbecis.

Na realidade, quem quiser sobreviver com a cabeça minimamente sã, não pode nem deve interessar-se ou participar nos acontecimentos da vida nacional. Eu conto-me entre os “malucos” que ainda lêem jornais e revistas, acompanham as notícias televisivas e se propõem ter e manter uma posição intervencionista, na sociedade, mesmo que com parcos resultados.

Nem tudo é mau, evidentemente. O António Mega Ferreira foi indigitado para a administração do CCB que bem precisado estava de uma reviravolta. No âmbito do Governo, é de referir a acção de Mariano Gago, para ganharmos todos algum alento. A diferença entre este senhor e os outros (e outras) é que tem um projecto, um plano e leva-o avante. Paciente e inteligentemente vai fazendo revoluções profundas na tessitura científica – e não só – do nosso País. Mas poucos se apercebem disso, embora muita gente vá beneficiar da sua acção, directa ou indirectamente.

É o contrário absoluto da Ministra da Cultura. Sem rumo nem ideias, parece um boneco de feira dos que dizem e repetem incessantemente palavras e frases sem sentido. (Na televisão, numa das suas caóticas e desarticuladas intervenções, o Secretário de Estado, colocado estrategicamente ligeiramente atrás, mas coladinho a ela, fez um número de ventriloquismo arrasador).

A Ministra dá entrevistas e aparece na televisão a debitar comunicados e tudo o que diz não tem significado ou quer dizer exactamente o contrário. Veja-se o caso da Colecção Berardo).

Já nem vale a pena falar da Casa da Música.

Mas a gaffe monumental em relação à exoneração do director do Teatro Nacional D. Maria II não tem paralelo. Num dos tais comunicados na televisão – sempre apressada e em jeito de “toma lá para aprenderem” – justificou convictamente a decisão de correr com António Lagarto do D. Maria por “falta de programação e por falta de público”.

Das duas, três: ou a Ministra está a mentir – o D.Maria tem tido uma programação como nunca se viu naquele teatro, uma programação “aberta” variada que tem atraído público de todas as áreas, idades e camadas sociais e António Lagarto revivificou aquela casa, arranjando, melhorando, dignificando e utilizando o “budget” de tal forma que recebeu um elogio do Ministério das Finanças, tendo o programa para 2006 bem estruturado – ou a Ministra não se informa devidamente e “engole” tudo o que lhe impingem – o que é mau, porque uma tutela da Cultura sem cultura é algo devastador; ou, ainda, a Ministra é um “peão no jogo da vida” de interesses inomináveis, o que tão pouco nos dá qualquer consolo ou satisfação.

É claro que o Primeiro-Ministro devia intervir – suponho que tem assessores culturais que o alertam para estas situações – mas, sejamos francos: neste País está-se toda a gente nas tintas para a Cultura. Temos Ministério da Cultura porque “ficava mal” se não tivéssemos, mas é só a fingir. E, o mais interessante, é que a situação é, também, marcada pela esquizofrenia: toda a gente comenta a “falta de cultura na sociedade portuguesa”. Os portugueses clamam que os portugueses lêem pouquíssimo, que não sabem falar, que não entendem as leis nem as medidas sociais, que não têm sentido cívico, etc, etc.

Ah! A cultura também passa pela boa educação e pelo respeito pelos outros. Quando Carlos Fragateiro correu a fazer declarações sobre o magistral projecto de “mais dramaturgia portuguesa” para o D. Maria II, antes mesmo de ser nomeado, mostrou a ânsia com que estava para passar por cima das mínimas regras do bom senso e do bom gosto.

Mas quem é que se rala com isso? Talvez os artistas, actores, escritores, agentes culturais e gente que trabalha em e para a Cultura e que estiveram no Rossio, no domingo passado e que se afligem – é este o termo – com o rumo dos acontecimentos. Mas, para o resto da população – a tal que clama contra a “falta de cultura” - os tais “artistas, actores, encenadores, escritores, agentes culturais e gente que trabalha em e para a Cultura” não passam de parasitas, sem se aperceberem que a Cultura não é algo estático, morto, arrumado e empacotado para “aparecer na televisão” quando é preciso dar a ideia de que somos “civilizados”, mas sim algo que é feito por pessoas, vivo, dinâmico e em constante mutação.

O Teatro D.Maria II é um bom exemplo: é uma casa muito difícil de gerir e António Lagarto conseguiu que toda a gente que lá trabalha se entusiasmasse com o seu projecto. Devolveu um espaço à cidade e aos cidadãos, atraiu pessoas de outras áreas culturais – da História, da Literatura, das Artes Plásticas – e mandou arranjar o próprio interior do Teatro que deixou de ser apenas uma fachada, uma “frente da casa” pomposa, para se tornar um lugar vivo, onde se ia, também, conversar, trocar ideias e discutir. A quantidade e qualidade das peças que levou à cena, as apresentações de livros, as “Conversas” e muito mais, falam por si.

Mas a Ministra não quer ver. Está confusa mas “nunca se engana”. E a teimosia dos que não querem ver é fatal.



O País fica paralisado de medo quando saltam cá para fora as notícias de que não vai haver capacidade para aguentar uma Segurança Social em colapso. Um colapso que nunca é novidade – embora seja tratado como tal – e que continua a ser o papão que congela o entendimento, já débil, dos portugueses.

(Quando se queixam da “população envelhecida” – viva a Inês Pedrosa que mostrou, numa crónica que há maneiras mais inteligentes de ver o assunto - dá a impressão que se querem ver livres dos velhos, embora nos países “normais” estes sejam uma força com enorme peso económico, intelectual, social. São pessoas que têm disponibilidade de tempo, que revitalizam o turismo, são grandes consumidores, vão ao cinema e a outros espectáculos, cuidam dos netos, ( e por vezes sustentam os filhos que estes não arranjam trabalho) frequentam universidades, etc. Por cá, o que se faz é acentuar a sua culpabilidade – “eh malta, atão ainda estão vivos?” – a sua sensação de humilhação por não serem tratados com dignidade. Mais uma vez falta uma cultura social e política.

E se toda a gente, incluindo eu, está preocupada com a sua reformazinha, porque é que ninguém está preocupado com o analfabetismo mental que continua a alastrar, em Portugal?



O único Ministro da Cultura que se impôs, que apresentou um Projecto sólido para a Cultura e que tinha sentido de Estado foi Manuel Maria Carrilho mas o País e o resto da pandilha trataram de o por a milhas.

(Ora não querem lá ver, um Ministro da Cultura que é culto e exigente? Onde já se viu tal despropósito???????)

Ora tudo isso advém da falta de cultura. E a cultura não é só saber responder à trivia dos concursos televisivos. Ou será?



Helena Vasconcelos

Storm-Magazine

1 de fevereiro de 2006

O dia de Nívea


Nívea acordou maldisposta nesse Domingo. Tinha aproveitado o fim-de-semana para rever alguns amigos dos tempos da faculdade, e a noite decorreu de bar em bar até à bebida final. Mas logo pela manhã recebeu um telefonema da redacção que a deixou logo contrariada.
Nívea, há notícias de estar a nevar na Figueira da Foz. Está toda a gente disponível destacada. Vais com o Vasco Rafael. Bom trabalho!

A jornalista desligou o telefone intempestivamente. “Bonito”, pensou. “Tinha de nevar hoje. Que merda de dia vou ter!”
Dirigiu-se ao café que era já o ponto de encontro habitual com o operador de imagem que sempre a acompanhava. Vasco já lá estava. Fumando nervosamente, queixou-se de ter sido arrancado da cama tão cedo.
- Da próxima vez que alguém me disser que inveja a vida do repórter de TV, vomito-lhe em cima! – ripostou Nívea.

Enquanto faziam o trajecto de Coimbra para a Figueira da Foz, Nívea preparava mentalmente as perguntas que teria de fazer aos transeuntes domingueiros que iria entrevistar. Nada de complicado, portanto; para além disso, reflectia no que tinha sido a sua carreira na TV Quatro. Podia considerar-se afortunada; afinal, mal tinha terminado o curso de jornalismo e já tinha conseguido o lugar naquela estação. Só teve pena de ter de abandonar o trabalho na Rádio Universidade, que tanto gozo lhe dava fazer. Ultimamente, contudo, sentia que o seu trabalho era cada vez mais rotineiro e pouco compensador. Andar sempre de um lado para o outro, a cobrir acontecimentos que, muitas vezes, só com uma grande dose de boa vontade poderiam ser considerados notícias. Só tinha de fazer perguntas à common people e deixá-los falar, quanto mais alto melhor, e tentando sempre acicatar a polémica, fosse qual fosse o assunto.

Mas o que mais a irritava – e a isso nunca poderia esquivar-se – era o tom irónico com que os colegas a chamavam na redacção. Nívea era um nome propenso a trocadilhos boçais; ela bem o sabia, mas tinha de fingir não reparar nos sorrisos idiotas dos colegas. Começava ficar farta de estar na Quatro, e vinha pensando seriamente numa inflexão a tomar na sua vida de jornalista.
Entretanto lá chegaram à Figueira: Vasco, Nívea e a sua figadeira. Encaminharam-se logo para a praia da Claridade, que estava revestida por um surpreendente manto alvo. Via-se muita gente por lá a passear.
- Ao trabalho! – disse Nívea, agarrando no microfone.
Vasco pôs a câmara a postos; prepararam-se rapidamente para a reportagem, e nem tiveram de ir à procura de entrevistados; uma pequena turba aproximou-se deles, como abelhas em busca de mel.

- Pronto? Podemos começar? Em 3, 2, 1... Quem poderia dizer que este areal estaria coberto de branco, proporcionando uma diversão tão improvável como esta que atraiu centenas de pessoas a este local, apesar do frio que se faz sentir? – Virou-se para a direita. – A senhora esperava uma surpresa destas por parte de São Pedro?
- Eu cá não, foi uma grande surpresa! – respondeu sorridente uma senhora de meia-idade. – Não estava mesmo nada à espera! Mas tem sido uma grande diversão!
- Já tinha visto alguma vez neve por aqui?
- Nunca! Neve a sério, só na Serra da Estrela. Estive lá na semana passada com o meu filho mais velho e...
- Mas vejo que não trouxe roupas apropriadas para estar aqui...
- Pois, não me agasalhei lá muito. Mas o frio até se aguenta bem! E a diversão compensa o frio.
- Não era disso que falava. A senhora já viu como vem vestida? Vem para aqui com essa roupa de feira, mal arranjada!
- ...
- Aos domingos vê-se cada coisa, realmente. Então aqui nas praias aparecem os campónios todos, no seu “passeio dos tristes” de quem não tem mais que fazer. Parecem uns maltrapilhos, não acha?
A mulher não respondeu e afastou-se, boquiaberta.
- Bom, aqui da Figueira da Foz coberta de neve, foi Nívea Vitoriano para a TV Quatro Informação.

Vasco estava estupefacto; ao desligar a câmara lançou um olhar incrédulo à colega.
- Que tens? Limitei-me a dizer-lhe aquilo que toda a gente pensa!
- OK, tu lá sabes. Vamos continuar com isto, que o frio quase me tolhe os movimentos. Mas desta vez não te emproes tanto!
Mas Nívea manteve o seu registo pedante. Em plena entrevista, perguntou a um homem se não tinha vergonha de aparecer na televisão como os dentes amarelados que tinha e disse a um miúdo que tinha um penteado ridículo demais para a sua idade. Até que se apercebeu que Vasco tinha desligado de novo a câmara e se tinha afastado a falar ao telemóvel. Segundos depois, o “câmara” abeirou-se dela.
- Vamos embora daqui – disse. – Ordens da redacção.
E só à medida que se afastavam é Nívea se apercebeu do burburinho que se tinha gerado naquela pequena multidão e dos olhares ameaçadores daquela gente.

No caminho de regresso, não trocaram palavra. Enquanto conduzia, Vasco estava absorto em vários pensamentos. Nunca gostara muito de Nívea; mantinham uma relação estritamente profissional. Essa atitude defensiva era uma espécie de escudo para Vasco, pois tinha de trabalhar com gente de diversos feitios – “personalidades”, como gostavam de dizer – lá na estação. Apesar de gostar do seu trabalho, ansiava por uma oportunidade de passar para a edição de imagem, onde poderia desenvolver a criatividade que possuía. Estes pensamentos foram subitamente interrompidos pelo toque do telemóvel de Nívea.

- Está sim? Boa tarde, senhor Viqueira! – Era o subdirector da estação. – Sim, sim. O Vasco Rafael falou consigo, não foi?... (silêncio) Não, apenas tentei animar as minhas entrevistas, não quis ofender as pessoas... não, não sinto que tenha ultrapassado quaisquer limites! (longo silêncio) Olhe, senhor Viqueira, não acho que esteja a precisar de férias neste momento. Para dizer a verdade, acho que o senhor está a tentar afastar-me da estação, mas não tem coragem Para dizer-mo! (outro período de silêncio) OK, estarei amanhã no gabinete da Direcção. Até amanhã!
- Acabou-se! – disse a Vasco enquanto desligava o telemóvel. – Vou finalmente sair deste inferno.
O resto da viagem cumpriu-se em silêncio. E, quando Vasco a deixou à porta do prédio onde vivia, Nívea despediu-se com um mero:
- Adeus! E felicidades!

Fechou a porta de casa e deitou-se no sofá. O cansaço da manhã tinha dado lugar a uma estranha sensação de alívio, como se acabasse de retirar um pesado fardo das costas. Ia descansar no resto do dia. E resolveu que logo depois da reunião na Quatro para acertar a rescisão do seu contrato, efectuaria todas as diligências para conseguir uma entrevista com a secretaria de produção do "Magazine" da 2: almejava trabalhar na área do jornalismo cultural, onde se sentiria finalmente entre os seus pares. Ligou a televisão, mas adormeceu pouco depois, enquanto a Quatro realizava um "Especial Informação" sobre o nevão daquele dia.

odeusdamaquina descobriu que...



+ =


Sinde Filipe + Filipe Crawford = Cindy Crawford

Os poetas sem Salário

São seres sem tostão
sem rei nem roque.
Passam ao largo dos demais
passos dos humanos

Vagueiam na lama, no interior dos comboios
na mais alta torre, no limiar dos castelos
E sonham!

Sem salário, sem sapatos para calçar
percorrem as ruas com as palavras no coração,
na mente inquieta que os atormenta

Com as feridas abertas do frio que os agarra
transpiram o mais sonoro alfabeto da
melodia do infinito, preces loucas
vidas desvairadas, solitárias

E com a surpresa, a paixão, os odores
de noites plenas e inacabadas
soçobram perante a agonia, a frivolidade,
a hipocrisia dos mortais

Os poetas sem salário
percorrem mundos
acham-se sem terra
os ossos talvez não tenham pátria
nem o suor do trabalho

Mas as lágrimas e o coração
têm uma pátria.
Uma pátria que tem algum sentido
quando a boca nos põe a falar dela.

Os poetas com o coração
rasgam montanhas, atravessam rios
e choram de felicidade
com a emoção dos outros.

A pátria dos poetas
é um imenso eflúvio
de sensações, de tempestades
e abraços imensos para o mundo.

B.R. 11/01/2006